Wednesday, September 15, 2010

a espécie errada

O meu problema, disse-me ele, era que eu pertencia a uma outra espécie. Era como se as partículas que me compõem houvessem cometido um erro de percursso, e adentrado o invólucro errado. Nascí então na espécie humana, e isso era o maior erro já visto no universo. Ele explicou-me que era como se eu não pertencesse a nada que recai sobre a esfera humana. Seus corpos, órgãos, membros, razão, leis, normas, desejos, aspirações e sobretudo suas almas. Eu estava me degladiando dentro de mim mesma. Ou do invólucro que havia me abrigado por acaso. Segundo ele, isso o assustava e assustaria qualquer um que pertencesse de fato a mesma espécie que a sua. Questionei-o a respeito dos amigos queridos e intensos que  eu possuía - poucos claro - e que pareciam entender-me com a alma inteiramente entregue. Pois ele foi curto, grosso e claro: são da mesma espécie que você, igualmente desavisados em um invólucro que não lhes pertence. E como, disse-lhe sobressaltada, como estes seres podem me reconhecer se possuem olhos humanos? Da mesma forma que você os reconhece, disse-me, já que é com a alma que vocês, desta espécie estranha, se comunicam entre si. Foi naquela mesma hora que amaldiçoei aquelas ridículas partículas que tinham errado o invólucro que me acolheria durante a vida. Eu jamais queria ter deixado de pertencer à uma espécie que vê a partir da alma. Contei a ele do meu desespero, mas ele lamentou o fato de me ver em tamanha exasperação mais uma vez. Não podia entender porque eu não dava graças a Deus por ter entrado por acaso em um corpo tão bonito, no meio de um planeta tão especial, o único a possuir vida inteligente segundo ele, e podendo usufruir de uma razão tão nobre e superior a todos os outros seres vivos existentes no universo. Olhei aquele homem que há alguns segundos atrás eu julguei amar, e senti uma pena tão grande, mas tão grande, que eu fiquei maior que eu mesma. A espécie dele utilizava os olhos, órgãos cujas verdadeiras funções me pareciam ter sido afetadas irreparavelmente, como meio de reconhecimento do mundo, dos outros e de sí mesmos. Como auxiliar possuíam as mãos, que notavam tudo aquilo que poderia ser tocado, o paladar que absorvia tudo o que podia ser deglutido, o olfato que pescava os odores e a audição que capturava os ruídos e sons - a música. Eu mesma podia experimentar todos esses sentidos, já que parasitava neste invólucro chamado corpo humano. Mas o que mais me amedrontrava, é que eles pareciam não possuir alma, e nenhuma propriedade do espírito. Só restavam alguns poucos, vagando ainda que perdidos pelo mundo, alguns poucos que viam demais, porque não viam com os olhos cegos daquele invólucro somente, mas também com o corpo todo e sobretudo com a essência que traziam bem no centro de si mesmos. Mas segundo ele mesmo, esses poucos pertenciam à minha espécie, e por isso eu cheguei à conclusão de que a espécie humana deve mesmo entrar em extinção. De nada serve para o planeta. Nem mesmo para perdurar o amor em mim. Aquele homem não foi capaz de fazer com que o amasse por mais de dez minutos. Ele não me via, porque julgava não me poder tocar. E tudo o que fugia destes dois primordiais sentidos, parecia-lhe inatingível e inalcansável - e eu mesma diria que provavelmente, parecia-lhe não existir. Eu não existia.

2 comments:

Emerson Cardoso said...

nossa... de onde veio tudo... me lembrou tanta coisa que fiquei desnorteado... lembrei do kafca e de um escritor argentino que escreveu o anatomista... algo assim... e até do carreira... hummmm... isso me inspira... lindo! bjo

Raquel Stüpp said...

nossa.

arrepiou!