Thursday, September 30, 2010

2016

Resolveu escrever uma carta para o filho. O filho que era um futuro a ser desenhado. O lápis tamborilou na página branca, como gente que fica embaraçada diante de um grande amor. A primeira letra que escreveu foi A. Que podia ser a incial de um nome, ou simplesmente o início do amor. Ela já sabia mais ou menos como ele ia ser, mas eliminava qualquer espera da sua cabeça. Ela sentia muito bem o quanto o peso da espera lhe encobria a alma. A única coisa que não conseguia apagar era o cabelo. Porque queria que seu filho tivesse uma cabeleira bacana. Mas bacana era um universo imenso, e poderia caber qualquer estilo que melhor caísse ao pequeno. E também, esperar do cabelo era mais leve que esperar da vida. Ela queria, mesmo, era deixar registrado que apesar de todo o amor que já sentia, seu primeiro presente a ele seria a liberdade, o mundo e o vento. Que ele fizesse bom uso. Ela queria estar de braços abertos para ele, viesse  como viesse. Era uma espécie de missão talvez. E que ele pudesse entender as suas escolhas, porque ela jamais as transportaria dela mesma. Iniciou a carta assim:

" Amado filho meu, te espero. E acredite, essa é a única espera que vou procurar depositar em suas costas. E mesmo no amor, buscarei ser comedida. Amarei você de maneira pesada só no silêncio do meu quarto, quietinha entre os sonhos. Que você só tome conhecimento da minha leveza. E que tenhamos tempo pra dançar nossas cabeleiras ao vento. Mas acredite, pode vir careca, que eu vou te amar mesmo assim".

problemas de conjugação

Fazia tempo que andava calada consigo mesma. Balbuciava uma ou duas palavras, mas logo levava a mão à boca, calando-a. Existia um silêncio profundo, uma consciência que reverberava por todos os poros, e uma sensação de perda. Perder, jogar-se, gritar, mudar, rearranjar, arrumar. Todos verbos que ela gostava de conjugar, e sabe-se lá porquê, vinha, agora, enfrentando sinceras dificuldades. A alma queria lhe revelar algo, ela ainda não conseguia entender o quê! 

Tuesday, September 21, 2010

herança

Ela pensou no que havia de esperar do mundo, quando nem em meio aos seus recebia uma acolhida doce. É, que tempos eram aqueles, onde as pessoas julgavam, criticavam, recriminavam, e ainda pretendiam sair ilesas? Terríveis guerras eclodiam dentro de cada ser, que ao negar uma gentileza, deflagrava bombas com o olhar. Mesmo sabendo que os prédios permanceciam em pé, seus olhos insistiam em ver toda a cidade, e todos os lugares por onde passava, absolutamente desmoronados. Só podia enxergar devastação. A frieza nos olhos dos sobreviventes gelava-lhe a alma, e nem rosas cresceriam naquele solo árido. Era duro ver matérias orgânicas tornarem-se rochas, sem nem mesmo carregarem a nobreza das últimas. Eram rochas ocas, sem minérios, devastadas igualmente. Ela chorava e escrevia, pensou assim, pelo menos, deixar uma espécie de herança para os novos habitantes que recebessem a missão de salvar aquele lugar.

Sunday, September 19, 2010

urgência

Eu não escrevo mais por necessidade, só por urgência.

Wednesday, September 15, 2010

a espécie errada

O meu problema, disse-me ele, era que eu pertencia a uma outra espécie. Era como se as partículas que me compõem houvessem cometido um erro de percursso, e adentrado o invólucro errado. Nascí então na espécie humana, e isso era o maior erro já visto no universo. Ele explicou-me que era como se eu não pertencesse a nada que recai sobre a esfera humana. Seus corpos, órgãos, membros, razão, leis, normas, desejos, aspirações e sobretudo suas almas. Eu estava me degladiando dentro de mim mesma. Ou do invólucro que havia me abrigado por acaso. Segundo ele, isso o assustava e assustaria qualquer um que pertencesse de fato a mesma espécie que a sua. Questionei-o a respeito dos amigos queridos e intensos que  eu possuía - poucos claro - e que pareciam entender-me com a alma inteiramente entregue. Pois ele foi curto, grosso e claro: são da mesma espécie que você, igualmente desavisados em um invólucro que não lhes pertence. E como, disse-lhe sobressaltada, como estes seres podem me reconhecer se possuem olhos humanos? Da mesma forma que você os reconhece, disse-me, já que é com a alma que vocês, desta espécie estranha, se comunicam entre si. Foi naquela mesma hora que amaldiçoei aquelas ridículas partículas que tinham errado o invólucro que me acolheria durante a vida. Eu jamais queria ter deixado de pertencer à uma espécie que vê a partir da alma. Contei a ele do meu desespero, mas ele lamentou o fato de me ver em tamanha exasperação mais uma vez. Não podia entender porque eu não dava graças a Deus por ter entrado por acaso em um corpo tão bonito, no meio de um planeta tão especial, o único a possuir vida inteligente segundo ele, e podendo usufruir de uma razão tão nobre e superior a todos os outros seres vivos existentes no universo. Olhei aquele homem que há alguns segundos atrás eu julguei amar, e senti uma pena tão grande, mas tão grande, que eu fiquei maior que eu mesma. A espécie dele utilizava os olhos, órgãos cujas verdadeiras funções me pareciam ter sido afetadas irreparavelmente, como meio de reconhecimento do mundo, dos outros e de sí mesmos. Como auxiliar possuíam as mãos, que notavam tudo aquilo que poderia ser tocado, o paladar que absorvia tudo o que podia ser deglutido, o olfato que pescava os odores e a audição que capturava os ruídos e sons - a música. Eu mesma podia experimentar todos esses sentidos, já que parasitava neste invólucro chamado corpo humano. Mas o que mais me amedrontrava, é que eles pareciam não possuir alma, e nenhuma propriedade do espírito. Só restavam alguns poucos, vagando ainda que perdidos pelo mundo, alguns poucos que viam demais, porque não viam com os olhos cegos daquele invólucro somente, mas também com o corpo todo e sobretudo com a essência que traziam bem no centro de si mesmos. Mas segundo ele mesmo, esses poucos pertenciam à minha espécie, e por isso eu cheguei à conclusão de que a espécie humana deve mesmo entrar em extinção. De nada serve para o planeta. Nem mesmo para perdurar o amor em mim. Aquele homem não foi capaz de fazer com que o amasse por mais de dez minutos. Ele não me via, porque julgava não me poder tocar. E tudo o que fugia destes dois primordiais sentidos, parecia-lhe inatingível e inalcansável - e eu mesma diria que provavelmente, parecia-lhe não existir. Eu não existia.

estranheza súbita

O seu mundo mais íntimo lhe pareceu estranho. Mas também, como não haveria de ser, já que por diversas vezes, até ela própria lhe parecia estranha. Nada neste mundo era garantia de nada. A aceitação, e sobretudo a compreensão, divergem muito do entendimento, e são mais sublimes, porque andam lado a lado com o amor. O ato de entender dá suas mãos ao ego, e passa pela razão lógica do ser. Ela, inocentemente, achava e esperava que o mundo todo se propusesse a sentir, mas quase sempre dava com os burros n´água.

Tuesday, September 07, 2010

escrever

Eu disse a ela, que escrever era como amar. Um exercício diário, onde tudo o que se poderia querer em troca era escrever mais, amar mais.

Monday, September 06, 2010

pequena carta de salvação

Existe alguém aí que me possa ouvir? Peço, encarecidamente, que enviem ao mundo, pequenas doses de sensatez, e cavalares doses de amor. Acredito mesmo, que desta forma, possivelmente, encontraremos um meio caminho para a salvação humana. Caso nem isso ajeite a coisa, eu prometo ser a primeira a não pedir mais nada, além de clemência. 

Essa é a súplica de uma pessoa que habita este planeta dominado pela selvageria dos homens.

Sem mais,

Gratidão.


Sunday, September 05, 2010

um pingo de domingo

Domingo. Caiu um pingo. No meio da testa da Robelamaria. Ficou estatelada de surpresa diante da sensação úmida de frio que lhe causou tudo. No fundo. Robelamaria não era bela de espera. Da forma que esperavam as pessoas. Mas era cheia de amor. E ainda se surpreendia com um pingo de domingo no meio da testa. Estatelada. Porque era domingo. Na verdade era um pingo. Só que não era de amor.