Friday, August 20, 2010

a máquina a obra e a palavra perdida

Era uma obra dessas de muitos ruídos e homens falando. Era tudo muito concreto, definitivamente. Sentia saudades da imponderância, do inacabado, das palavras sem sentido que destilava na madrugada, na vã tentativa de entender a vida e as pessoas. Qualquer coisa que vinha daquelas betoneiras e maquinários exdrúxulos lhe fazia perder o sentido de emoção. Era como se ter perdido as palavras certas da vez anterior, por culpa de uma máquina inútil, lhe fizesse se revoltar contra todas as máquinas do mundo. Qualquer ruído que não viesse de matéria humana lhe parecia desnecessário. Uma máquina havia engolido suas palavras. Sem aviso prévio, pelo menos que ela tivesse entendido. Ela, de forma nada polida, rebelou-se contra a máquina e insistiu em formatar as mesmas palavras novamente. Mas suas palavras não tinham forma, e o que surgiu foi um texto novo, levando para um caminho muito distante daquele construído com as palavras que a esfomeada máquina comeu. Mas se fome tinha a máquina débil, mais fome ainda tinha ela. Fome capaz de aniquilar a pobre máquina, com uma sucessiva fabricação de palavras assassinas, capazes de fundir o sistema operacional de qualquer obra prima dos fios e conexões. Ela estava sentada em frente a sua vilã, com mãos em punho, e obstinação capazes de persuadí-la toda. Ela estava pronta para criar eternamente, quantas vezes fossem necessárias. Mas a inutilidade de tudo aquilo lhe ocorreu, quando lembrou-se vagamente da sensação que lhe havia tomado, quando terminara de ler seu primeiro texto, e deu-se conta de que jamais a reencontraria, já que a terrível caixa de metal, havia lhe levado embora toda sua dignidade. Uma vez palavra, jamais será repetida palavra. Impossível desenhar novamente algo tão pueril, tão passageiro de sí mesma. Nem ela sabia de onde vinham suas palavras, tanto que jamais recuperaria aquelas que perdeu. Só não sabia pra que serviriam as mesmas para aquela máquina acéfala. Talvez calssem a boca daqueles homens dados à praticidde, numa futura revolução, onde a subjetividade ficasse a cargo das máquinas e não dos homens. Mas no fim é só uma obra e um texto perdido que virou outra coisa nova enfim...

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