Monday, August 23, 2010

Joana

Joana precisava de ar. Parou diante da porta de seu apartamento e pensou:
- Mas pra que raio de lugar eu vou? Qualquer um onde não haja ninguém!
(...)
Minutos se passaram e seu pensamento não alcançou lugar algum. Voltou subiu passo a passo os degraus do retrocesso. Havia algo de muito errado no seu batimento cardíaco, que a diferenciava do resto do mundo. Qualquer coisa fora de compasso que a marcava como anomalia nada divina.
Cansou, já não tinha mais idade para correr escadas acima assim tão fácil. Sentou-se no sofá. Pariu uma espécie de exclamação. Julgou ser todos os filhos que lhe esperavam a avó, a mãe, as tias avós, a família toda. Julgou ser todas as expectativas que lhe entubavam cérebro abaixo, forçando seus neurônios, forçando sua alma. Pariu tudo de uma só vez, e nem sujou o tapete.
Ela queria encontrar o bilhete único, sem volta, pra dentro dela mesma, e lá morar sem se preocupar com o aluguel. Sentia-se inquilina do próprio corpo, e sua conta bancária ia secando que nem o solo da caatinga. As rachaduras nos seus olhos, demarcavam seu espaço de visão, que não abrangia o mundo todo que pintavam pra ela. Na verdade, bastava uma grama bem verde, um livro bem profundo e hilário, e uma sombra silenciosa, para que ela se aquietasse. O resto era dos outros, mas como eles não tinham mãos suficientes para agarrar tudo, lhe despejavam missões bizarras, as quais ela deveria cumprir, cada uma até certa idade.
Os prazos de validade a irritavam profundamente. Desde o do leite até o da morte. A pessoa não podia nem morrer direito, tinha que se preocupar que sua morte duraria até sua próxima vida. E nessa próxima vida, ela tinha que fazer escolhas, através das quais ela evoluiria, e assim, até alcançar o direito de não viver mais. Ora essa, viver não era uma dádiva? Pois então porque raios ela deveria se preocupar em evoluir para não precisar mais viver neste plano que aqui se encontrava? E tinha mais, quando é que a pessoa tinha direito a descansar? Sim, porque mesmo morto, tinha tarefas de ascensão do espírito, e vivo então...
A verdade é que Joana estava achando tudo uma grande palhaçada. Se pudesse mandava o mundo todo pra dentro de um palavrão bem horroroso. Mas não podia, e ela nem sabia porque. Nessa hora só pensava no silêncio. E só pensava em ter espaço para ser ela, dessa forma estranha que ela era. Talvez ela não chegasse a lugar nenhum, talvez não tivesse coragem, talvez não tivesse filhos, nem encontrasse um homem bom. Possivelmente ela fizesse a escolha de se dedicar incansavelmente as palavras, deixando sim, o amor de lado. Talvez se ela se apaixonasse, não fosse por uma pessoa bonita. Possivelmente ela, Joana, não seria muito simpática, nem percorreria o glamour. Sinceramente, queria ter direito ao simples desejo de ser ela mesma, ainda que sua cara estivesse feia e isso não fosse de bom tom.
Era do bom tom que Joana queria se livrar. Aliás, de qualquer tom. Na maioria das vezes, ela não empregava intenção alguma no que quer que fosse, apenas deveria estar correspondendo ao mundo que lhe exigia tudo ao apertar de um botão. Mas Joana não era uma máquina, e estava verdadeiramente cansada!!!

No comments: