Monday, August 30, 2010

delicadeza express

Olá, por gentileza, gostaria de reclamar a delicadeza que encomendei pelo site, mas não me foi devidamente entregue. Anote aí em seus registros, que por três vezes me tentaram entregá-la, mas por motivos desconhecidos não ouvi o bater na porta. Registre também a minha ousadia em dar uma dica: eu acredito que foram tão sutís na entrega da delicadeza, que fatalmente eu não pude escutá-los, diga-lhes, que da próxima vez façam tamanho estardalhaço, de maneira que o bairro todo possa ouvir o chegar da delicadeza. Sabe o que é moça? Já estamos tão acostumados com a entrega de ódio, falta de educação e desprezo, cujas chegadas são retumbantes e sonoramente avassaladoras, que não podemos encarar o fato de uma delicadeza sutil nos tempos de hoje. Pro nosso mundo, delicadeza tem que vir com melancia no pescoço e muito barulho na chegada!

Muito obrigada moça, espero que tenha um bom dia, uma boa vida, e um bom amor. Não esqueça, por gentileza, da minha delicadeza.

Monday, August 23, 2010

Joana

Joana precisava de ar. Parou diante da porta de seu apartamento e pensou:
- Mas pra que raio de lugar eu vou? Qualquer um onde não haja ninguém!
(...)
Minutos se passaram e seu pensamento não alcançou lugar algum. Voltou subiu passo a passo os degraus do retrocesso. Havia algo de muito errado no seu batimento cardíaco, que a diferenciava do resto do mundo. Qualquer coisa fora de compasso que a marcava como anomalia nada divina.
Cansou, já não tinha mais idade para correr escadas acima assim tão fácil. Sentou-se no sofá. Pariu uma espécie de exclamação. Julgou ser todos os filhos que lhe esperavam a avó, a mãe, as tias avós, a família toda. Julgou ser todas as expectativas que lhe entubavam cérebro abaixo, forçando seus neurônios, forçando sua alma. Pariu tudo de uma só vez, e nem sujou o tapete.
Ela queria encontrar o bilhete único, sem volta, pra dentro dela mesma, e lá morar sem se preocupar com o aluguel. Sentia-se inquilina do próprio corpo, e sua conta bancária ia secando que nem o solo da caatinga. As rachaduras nos seus olhos, demarcavam seu espaço de visão, que não abrangia o mundo todo que pintavam pra ela. Na verdade, bastava uma grama bem verde, um livro bem profundo e hilário, e uma sombra silenciosa, para que ela se aquietasse. O resto era dos outros, mas como eles não tinham mãos suficientes para agarrar tudo, lhe despejavam missões bizarras, as quais ela deveria cumprir, cada uma até certa idade.
Os prazos de validade a irritavam profundamente. Desde o do leite até o da morte. A pessoa não podia nem morrer direito, tinha que se preocupar que sua morte duraria até sua próxima vida. E nessa próxima vida, ela tinha que fazer escolhas, através das quais ela evoluiria, e assim, até alcançar o direito de não viver mais. Ora essa, viver não era uma dádiva? Pois então porque raios ela deveria se preocupar em evoluir para não precisar mais viver neste plano que aqui se encontrava? E tinha mais, quando é que a pessoa tinha direito a descansar? Sim, porque mesmo morto, tinha tarefas de ascensão do espírito, e vivo então...
A verdade é que Joana estava achando tudo uma grande palhaçada. Se pudesse mandava o mundo todo pra dentro de um palavrão bem horroroso. Mas não podia, e ela nem sabia porque. Nessa hora só pensava no silêncio. E só pensava em ter espaço para ser ela, dessa forma estranha que ela era. Talvez ela não chegasse a lugar nenhum, talvez não tivesse coragem, talvez não tivesse filhos, nem encontrasse um homem bom. Possivelmente ela fizesse a escolha de se dedicar incansavelmente as palavras, deixando sim, o amor de lado. Talvez se ela se apaixonasse, não fosse por uma pessoa bonita. Possivelmente ela, Joana, não seria muito simpática, nem percorreria o glamour. Sinceramente, queria ter direito ao simples desejo de ser ela mesma, ainda que sua cara estivesse feia e isso não fosse de bom tom.
Era do bom tom que Joana queria se livrar. Aliás, de qualquer tom. Na maioria das vezes, ela não empregava intenção alguma no que quer que fosse, apenas deveria estar correspondendo ao mundo que lhe exigia tudo ao apertar de um botão. Mas Joana não era uma máquina, e estava verdadeiramente cansada!!!

Friday, August 20, 2010

a máquina a obra e a palavra perdida

Era uma obra dessas de muitos ruídos e homens falando. Era tudo muito concreto, definitivamente. Sentia saudades da imponderância, do inacabado, das palavras sem sentido que destilava na madrugada, na vã tentativa de entender a vida e as pessoas. Qualquer coisa que vinha daquelas betoneiras e maquinários exdrúxulos lhe fazia perder o sentido de emoção. Era como se ter perdido as palavras certas da vez anterior, por culpa de uma máquina inútil, lhe fizesse se revoltar contra todas as máquinas do mundo. Qualquer ruído que não viesse de matéria humana lhe parecia desnecessário. Uma máquina havia engolido suas palavras. Sem aviso prévio, pelo menos que ela tivesse entendido. Ela, de forma nada polida, rebelou-se contra a máquina e insistiu em formatar as mesmas palavras novamente. Mas suas palavras não tinham forma, e o que surgiu foi um texto novo, levando para um caminho muito distante daquele construído com as palavras que a esfomeada máquina comeu. Mas se fome tinha a máquina débil, mais fome ainda tinha ela. Fome capaz de aniquilar a pobre máquina, com uma sucessiva fabricação de palavras assassinas, capazes de fundir o sistema operacional de qualquer obra prima dos fios e conexões. Ela estava sentada em frente a sua vilã, com mãos em punho, e obstinação capazes de persuadí-la toda. Ela estava pronta para criar eternamente, quantas vezes fossem necessárias. Mas a inutilidade de tudo aquilo lhe ocorreu, quando lembrou-se vagamente da sensação que lhe havia tomado, quando terminara de ler seu primeiro texto, e deu-se conta de que jamais a reencontraria, já que a terrível caixa de metal, havia lhe levado embora toda sua dignidade. Uma vez palavra, jamais será repetida palavra. Impossível desenhar novamente algo tão pueril, tão passageiro de sí mesma. Nem ela sabia de onde vinham suas palavras, tanto que jamais recuperaria aquelas que perdeu. Só não sabia pra que serviriam as mesmas para aquela máquina acéfala. Talvez calssem a boca daqueles homens dados à praticidde, numa futura revolução, onde a subjetividade ficasse a cargo das máquinas e não dos homens. Mas no fim é só uma obra e um texto perdido que virou outra coisa nova enfim...

reza

Que não lhe impusessem nenhuma herança, nenhum carma, nehuma missão, nenhum gene, nenhuma espécie de prisão qualquer que fosse. Por conta dela, ficaria o processo de leveza e desocupação das culpas. Que a deixassem a cargo do seu otimismo, do seu idealismo e do seu prazer pelas mudanças. Que entendessem que frequências mudam, vasos saem do lugar e as cores se misturam. Que aceitassem suas mudanças e suas transitoriedades. Que tivessem paciência, na espera. Que não desenhassem suas expectativas em cores tão vivas e traços tão fortes, já que expectativas são projetadas em solo transmutável, e servem muito mais aos desígnios da borracha e do lápis. Seu caminho era desenhado no terreno do glamour e da desorientação. Sua pernas iam cedendo aos infortúnios e aos lírios. De alguma forma, sua casa era dentro dela mesma. As aglomerações debatiam-se diante de sua porta, mas muitas vezes ela não atendia. Que lhe expusessem seu silêncio mais solene, e nos olhos esperançosos mantivessem a calma. Sua matéria era toda feita de uma macilenta geléia fluida. Uma geléia verde e transparente, que pendia para um emaranhado de lados distintos. Que lhe pudessem emanar generosidade, e que ela mesma, pudesse dar a sí doses da mesma, já que sabia sair de sí as grossas correntes da super exigência.

Tuesday, August 17, 2010

idealista

Tem quem não se comprometa com o estrago de viver a vida. Tem quem não se dedique a delicadeza brutal de educar uma criança. Há os que fogem das responsabilidade de uma amizade e os que se defendem da tranquilidade de um verdadeiro amor. Existem os que fogem da política, justo ela que está contida em todos os atos de um ser humano. E os que fogem do seu lugar no mundo, pra pertencer a bolha do egoísmo. Esses que escolhem a mediocridade em detrimento de uma vida vivida até a última gota, diriam ser realistas, já os outros todos, que são a minoria do planeta, são os idealistas. Ainda bem que ainda existem idealistas que agem diante da realidade. E seguimos com vontade de acordar essa juventude morta que paira em nosso tempo.

Wednesday, August 11, 2010

novo

Andaria mais descalça, retomaria suas pedaladas e interações com a natureza. Apreciaria mais vezes a sua companhia, o seu silêncio, seus rituais, as suas rezas e velas pra deus nenhum. Juraria ver mais filmes, ler mais livros, descobrir mais músicas, fazer mais cursos. Fotografaria o mundo, muitas vezes mais. Compraria mais esmaltes, levantaria suas paredes, buscaria a casa nova, engendraria as viagens fantásticas que desejava. Compraria menos. Sonharia mais. Realizaria tudo. Agiria. Batalharia mais por sí, sem esquecer o outro. Amaria mais. Se entregaria um tanto. Abraçaria e beijaria gratuitamente. Andaria na paria, entraria no mar e olharia pra lua. Saiu destinada a ser mais intensa e fiel a sí mesma, e sabia que assim estava abrindo as portas de um longo e lindo novo período em sua vida. Tudo estava começando a brotar da terra, terra que ela arava há anos!

Monday, August 09, 2010

cautela

Com o passar do tempo, tudo vem ganhando doses de cautela. Há um pingo de pensamento e ponderação em quase tudo o que se faz e diz. Aquilo que não leva essa pitada, fica a cargo dos impulsos, e é secretamente necessário e indispensável à nossa sobrevivência. O resto todo torna-se uma pisada leve em chão de madeira velha. Sobretudo a escrita. As palavras escritas sobre uma folha de papel, vão ganhando cada vez mais essência e necessidade. Não há como escrever por escrever. Tudo é urgentemente necessário, caso contrário vira pensamento vago, a cargo do esquecimento nos próximos segundos. Por isso reduz-se o número de páginas, mas possivelmente toca-se mais!

Wednesday, August 04, 2010

primeira vez

Pela primeira vez encontrou o amor, e pela primeira vez não se perdeu!