Friday, January 08, 2010

sobre províncias, presidentes, coisas obsoletas e o que me assusta

Me assusta ver gente ignorante, se achando inteligentíssima. Me assusta a febre de poder, glória, riquesa e notoriedade que assombra, não digo a humanidade, mas sobretudo algumas pessoas próximas, que eu já até cogitei chamar de amigos. Me assusta o pré julgamento, o preconceito, qualquer coisa que venha antes, pra tentar encaixa na prateleira "a" o rótulo "b", e assim por diante. Me assusta a falsa fé, a falsa piedade, o falso amor, a falsa justiça. Me assusta ouvir dizer por aí que alguém é burro só porque não fez faculdade, ou não terminou os estudos até o terceiro ano do ensino médio, me assusta as pessoas realmente acharem, que curso superior, diploma pendurado na parede, e toda a infraestrutura intelectual falsamente absorvida, faça de alguém mais capaz que outro, que da vida absorveu tudo o que pode, e também dos meios intelectuais, de maneira extra oficial. Me assusta porque eu tive colegas na faculdade, que se formaram e ostentam um diploma em sua paredes, cuja massa encefálica e o aparato cultural, não seriam dignos nem mesmo de uma piadinha infame. Me assusta porque muita gente é burra na alma, no coração, e absurdamente - aí o que mais me assusta - muita gente é burra no instinto. Gente que já foi domesticada por esse mundo, onde pisar num salto, vale mais que saber pousar o pé no chão, com a elegância de um pavão. Me assusta muito os princípios e valores obsoletos, tidos como modernos, de uma geração que preza o não lugar, a não presença, o verniz e o rótulo. Me assusta ver, de gente tão pertinho, as considerações sobre a política do país. Me assusta que esperem eleger um presidente dito "letrado" que possa substituir o presidente dito "analfabeto" e construir um país melhor. Certamente um país melhor seria construído para estes a que me refiro, cujo sustento advém de seus pais, onde o esforço máximo talvez seja sacar o dinheiro no banco. Um país melhor para eles, que tanto faz, como tanto fez, o miserável matar a sua fome, já que pra eles mais importa saber se poderão viajar para Paris no final de semana que virá. Dificilmente eu me coloco em questões políticas, divinas, transcendentais, culturais, artísticas, ou qualquer outra coisa mais séria, diante de discussões, cujas rodas são povoadas por essas pessoas, que mergulharam num capitalismo cego, numa burguesia obsoleta, num desenfreado viver às vistas dos outros. É perda de tempo. É pura perda de tempo. Porque eu aprendi em casa, que política está em tudo. No menor e no maior ato do seu dia a dia. No seu ofício. No seu jeito de educar uma criança. Na compra que você faz no supermercado. Em casa eu aprendi, que política, se faz pensando no outro, inteligentemente sabendo, que se o outro vai bem, isso refletirá no todo, e obviamente em você. Tenho minhas opiniões e minhas ressalvas a respeito do governo em gestão, e não é sobre isso o foco desse post. Mas o fato é que venho observando alguns amigos ultimamente. Venho os ouvindo falar sobre o mundo, venho tendo noção de seus valores, e confesso, venho sentido um quê de indigestão. Há uma linha de supervalorização da capa, do que perfaz a linha que é vista. Há uma supervalorização do magnânimo, daquilo que enobrece o que o olho pode ver. Há uma inversão, trazendo a vida pra fora de sí, quando ela deveria repousar dentro. Me entristece, e me enraivece - não posso evitar - que pessoas com tantas oportunidades, estejam resignadas, à mercê de pensamentos tão redundantes, obsoletos e superficiais, a respeito do mundo, do Brasil, de si mesmas. Me assusta o tipo de pais que essas pessoas serão, o tipo de artistas, aos que a isso se dedicam, o tipo de seres humanos. Essas pessoas, quando forem idosas, como viverão? Quando a boca, o peito, a bunda, já não mais sustentar a glória dos 20 anos? Provavelmente estarão no mesmo lugar, com mais de litros de botox correndo nas veias. Não sentirão o toque da pessoa amada, porque parecerão quase como bonecos de plástico. Talvez os bonecos de plástico sejam mais interessantes. Estarão pensando a mesma coisa, e elegendo o mesmo tipo de político, com condecorações diplomáticas, que fale mil línguas e devote o seu tempo a gente como eles. Sobre os miseráveis só saberão que são gente brega, com mal goto para vestir, com mal gosto para comer, com mal gosto para portar-se. Os chamarão de sem educação, excluindo-se da culpa por tal vexame. Sim, porque estas pessoas vivem num mundo que é delas, a terra prometida por Deus, àqueles que nasceram com alma "nobre", e têm o olhar sobre o outro, como aquele que invade a terra, e discemina nela, a semente do inferno. Esses jamais olharão para dentro de si, e descobrirão que o inferno não são os outros, e sim, eles mesmos, carregando suas almas débeis, por cada esquina de Paris, Berlim, Nova York, ou qualquer lugar do Brasil que seja digno de pisarem - até Florianópolis, que andam dizendo, está melhor que Ibiza. E não pode ser Florianópolis bacana, sem precisar ser melhor que algum lugar fora do Brasil, pra continuar sendo boa? Aliás, alguém acha legal contabilizar quanta gente do PROJAC foi passar fim de ano em Florianópolis?Alguém acha válido um jornal fofocar sobre o preço da Champanhe que tal figurinha comprou o dobro, gastando um dinheiro que alimentaria muitas bocas? Alguém acha que isso faz de um lugar, realmente um bom lugar pra se passar férias? É disso que eu estou falando.

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