Thursday, December 31, 2009

Antônio V

O pão cortado sobre a mesa. Mas só o farelo o interessava. Antônio em mais um de seus últimos dias do ano. Dessa vez, desmedidamente diferente. A foto amarelada, ele havia guardado tão bem, que não a encontraria facilmente. O coração, já não andava tão só. E ele achava tudo isso muito esquisito.
Se havia uma agonia neste último dia do ano, era a saudade, que lhe entorpecia todos os poros,e a vontade de gritar todas as bobagens do mundo, que lhe inundavam a garganta. Talvez, de todos os últimos dias do ano, neste ele estivesse mais pleno, mais sereno, mais leve. O que não quer dizer, que por um pequeno desvio de segundo, não tenha pensado nela, com o mesmo ardor de quem procura o grande amor da sua vida, perdido na memória.
Mas ele esquecia logo em seguida, e lembrava do novo sopro do coração. E sorria, com aquela calma de quem sorri manso. Era muito diferente a sensação que lhe causava o novo amor, assim podia dizer. Era menos voluptuoso, porém intenso. Era menos agoniante, e mais sensato. Não era chato, e tinha surpresas, conflitos, mas tudo era resolvido a um passo do mesmo desvio de segundo que lhe fazia lembrar. Ele desconfiava muito, claro. Achava que era só uma parada na estação do amor. Pra ele descançar, e logo em seguida continuar sua busca desenfreada por aquela que um dia lhe roubou a alma. Ao mesmo tempo, e se ele quisesse ficar na estação?
Antônio não se preocupava muito, talvez a diferença maior fosse nele. Ele andava a voar mais. E no último dia do ano, quisera estar com seu amor, aquele que ele podia tocar, embora no fundo, no fundo, ele soubesse onde andava a foto amarelada, e só fingisse não saber!

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