Thursday, December 31, 2009

Antônio V

O pão cortado sobre a mesa. Mas só o farelo o interessava. Antônio em mais um de seus últimos dias do ano. Dessa vez, desmedidamente diferente. A foto amarelada, ele havia guardado tão bem, que não a encontraria facilmente. O coração, já não andava tão só. E ele achava tudo isso muito esquisito.
Se havia uma agonia neste último dia do ano, era a saudade, que lhe entorpecia todos os poros,e a vontade de gritar todas as bobagens do mundo, que lhe inundavam a garganta. Talvez, de todos os últimos dias do ano, neste ele estivesse mais pleno, mais sereno, mais leve. O que não quer dizer, que por um pequeno desvio de segundo, não tenha pensado nela, com o mesmo ardor de quem procura o grande amor da sua vida, perdido na memória.
Mas ele esquecia logo em seguida, e lembrava do novo sopro do coração. E sorria, com aquela calma de quem sorri manso. Era muito diferente a sensação que lhe causava o novo amor, assim podia dizer. Era menos voluptuoso, porém intenso. Era menos agoniante, e mais sensato. Não era chato, e tinha surpresas, conflitos, mas tudo era resolvido a um passo do mesmo desvio de segundo que lhe fazia lembrar. Ele desconfiava muito, claro. Achava que era só uma parada na estação do amor. Pra ele descançar, e logo em seguida continuar sua busca desenfreada por aquela que um dia lhe roubou a alma. Ao mesmo tempo, e se ele quisesse ficar na estação?
Antônio não se preocupava muito, talvez a diferença maior fosse nele. Ele andava a voar mais. E no último dia do ano, quisera estar com seu amor, aquele que ele podia tocar, embora no fundo, no fundo, ele soubesse onde andava a foto amarelada, e só fingisse não saber!

Wednesday, December 30, 2009

o tempo chegara

Tinha o vento, e a cabeça suspensa, se deixando levar. Tinha uma ausência de cobrança, e uma ausência de expectativas desmedidas. De novo, as expectativas. Não exigia demasiadamente da vida, e assim aprendeu, que a vida sentia-se à vontade para dar-lhe em dobro. Planejara algumas coisas, mas sempre sabia que algo melhor poderia lhe mudar a rota, e achava isso natural. Prendera os medos no porão, como se fossem fugitivos, e jamais os soltaria; que viessem novos. Os sonhos ia transformando em realidade e sonhando mais e mais. Aprendera que a vida teria o tempo que desejara, e que nesse tempo, caberia a ela estar feliz o maior número de horas que pudesse, contando-se nisso, a arte de viver a trizteza com dignidade. Lembrara do vento, e pensara na necessidade absoluta de silêncio que vinha sentindo. Dessa vez, sentia que precisava ficar consigo mesma, dentro de um casulo de liberdade, desses únicos. Talvez porque intuísse que se aproximavam as grandes mudanças que já sabia. Talvez porque fossem seus últimos minutos em que poderia ser só ela, e nada mais. Os últimos minutos em que poderia andar nas ruas, sem ser o amor de alguém, o exemplo de um estranho, o ser mítico elucubrado por pessoas distintas, a melhor amiga, a filha, a irmã. Sabia que existiam momentos mais cruciais que outros na vida, e sabia que mais um dos seus, se aproximava. O tempo que viria, seria de mudanças absurdas, e concretizações em massa. Mudaria o cenário, mudariam as companhias, mudariam as expectativas sobre ela. Pessoas aleatórias se aproximariam, por interesse. Portas se abririam, pelo reflexo. Mas ela queria o que estava por chegar, então deveria levar os contras da situação com dignidade e elegância. Mas tinha o direito, como pessoa privilegiada que intui o tempo que está por vir, de se deleitar em seus últimos segundos de si mesma. Como quem se aproveita, antes que passe a ser do mundo. Por alguns segundos só, ela queria esquecer que era qualquer coisa de qualquer pessoa, ou animal. Ela queria ser apenas uma solitária pessoa que vaga, pé ante pé, dentro de sí mesma, a descobrir seus silêncios. Ela queria estar em sí, talvez pela última vez , em muito tempo. Era uma preparação. E ela fazia isso com sorriso no rosto. Chegara, finalmente, o tempo de colher o que plantou, e nisso ela pautava toda a sua alegria real e objetiva. Seria o amor de alguém, seria a filha, seria o ser mítico, seria o exemplo, seria tudo o que tivesse que ser, mas antes seria ela mesma e só, assim, na essência mesmo. O tempo chegara, era tudo uma questão de segundo após segundo!

Monday, December 28, 2009

fragmento de férias I

Do silêncio natural.

As pessoas resistem tanto em estar ao silêncio natural. Esse som que vem da Natureza, e chama-se vento, água, pássaro, pedra. Talvez, porque assim escutem sua voz. Essa que nunca cala, mas é abafada com a buzina do carro, a voz do homem, o grito de dor

Friday, December 25, 2009

passageiros de nós

Algumas pessoas passam pelas nossas vidas, assim como nós passamos pela vidas de muitos. Passantes; alguns não deixam muito, outros deixam tanto, que nos perguntamos o que teriam se tornado, se além de passar, ficassem. Esses deixam tanta saudade. Aquela saudade das coisas que poderiam ter sido, das coisas que não foram, das coisas que gostaríamos que tivessem sido. Ums saudade meio futuro do pretérito.
Muito diferente da saudade daqueles, que mesmo distantes, entraram na sua vida de maneira irrefutável, e farão parte dela pra sempre. É diferente, bem diferente. Tem gente que fica na vida da gente, pra sempre, mesmo que num determinado pedaço do caminho se distancie, torne-se uma presença exporádica ou virtual. São as pessoas que ganharam o visto permanente, que compartilharam um pedaço da vida com a gente, e que estão presentes no pedaço de matéria humana que nos tornamos ao longo da vida. Moram em nossa história, mais que em nossa memória, e são donos de lições e momentos, que não ousamos esquecer.
Com alguns, raros, conseguimos construir uma espécie de cotidianidade infinita. Aí pouco importa a distância física, já que sempre estaremos no dia a dia um do outro. Sempre saberemos de tudo, daremos pitaco, telefonaremos, estaremos presentes no porvir da vida. Mas isso acontece com alguns apenas. Há ainda os que, mesmo através do tempo, quando reencontrados, é como se nada tivesse acontecido, como se o tempo não houvesse passado, e a afinidade se mostrasse intacta. Lindo!!!!
Mas os passantes muito me intrigam. Alguns retornam e ganham visto permanente. Outros jamais reaparecem. E mesmo assim, estão longe de serem banidos de nossas vidas. Não deixam jamais a prateleira dos queridos amores. Isso é coisa pra quem a gente não gosta, e dos passantes, muitos, a gente costuma gostar desmedidamente.
Eu lembro-me dos meus amores passantes. Tem desde a adolescência. Aquele menino que eu nunca entendi porque não troquei telefone, e-mail, qualquer coisa. Parecia tão pra mim... e tantos outros vieram depois. Alguns passaram por segundos, outros por meses. Alguns se tornaram tão próximos num piscar de olhos, e no mesmo piscar sumiram. Também não sei até que ponto, quem sumiu ou os fez sumir fui eu. Eu gosto de cultivar essas passagens, acho que elas fazem da vida mais divertida. Então a gente encontra uma foto antiga, no computador antigo da casa da mãe, e sente um frio na barriga. Pensa como anda essa pessoa, o que ela faz, pra quem ela sorrí nesse axato momento. Aí a gente se lembra de quando ela sorria pra gente. E a gente acaba sorrindo, pensando que ainda bem que ela passou por nós, pior se nem tivesse passado. E eu nem sei se gostaria que ela voltasse a passar, porque talvez seu encanto dure apenas alguns segundos mesmo, e viva melhor na lembrança. E os amigos que passaram...
A vida já me ensinou uma coisa muito importante. Tem gente que é pra rotina, pro dia a dia, pro mau hálito, pro mau humor, pro cabelo bagunçado, pra preguiça, pra lágrima, pra festa, pra segunda feira, pro domingo nublado, pro camarão na praia, pra cerveja na esquina, pro aperto do bolso, pro presente especial, pra palavra amiga, pro segredo, pra hora que der e vier, pro, sempre da vida; e tem gente que é pra um segundo a mais de aventura, pro calafrio, pra memória, pra saudade, pra nostalgia, pro não entender, pra quando a gente só tá bem vestida, pro jogo, pra brincadeira, pro vento na praia, pra fugida, pra perder o juízo, pra momentos únicos, mas soltos, ao longo da nossa existência; momentos que nos ligam a outros momentos, passagens de nós mesmos, guias de nossas mudanças, ápices de nossas viradas, iniciadores de nossas aventuras; depois deles, ainda que muitas vezes durante eles, temos os nossos, aqueles que nos são sempre, não passam, porque ficam, e sem estes, a vida não teria a menos graça, nem a menor seriedade, porque eles nos permitem e nos proporcionam tudo ao mesmo tempo, independente a passagem!!!!!

Wednesday, December 23, 2009

senhor 2009

2009 não tem gráfico. 2009 tá se passando, tipo jogo de futebol, aos 57 do segundo tempo. "ô seu juíz, acaba isso logo?". 2009 faz gol nos acréscimos. 2009 chorou dor de amor por um dia só, e aprendeu que pessoas especiais chegam, e suprem nossas expectativas, sem que a gente precise imaginá-las fazendo algo que elas não farão. 2009 veio pra dar uma rearrumada no armário, e tirar quem não serve pra vida toda, da prateleira errada. colegas, colegas, amigos, amigos, passantes, passantes, amores, amores. 2009 calçou pantufa e não saiu de casa por um tempo. curtiu o tédio momentâneo dos dias de chuva, que não cessam. 2009 foi a praia de bicicleta. 2009 definiu seu território. leu seu mapa astral. vestiu-se de sorte. 2009 deu presentes, proporcionou surpresas. correu contra o tempo. destilou preocupações. adoentou amigos. reafirmou parcerias, uniu gente do bem e fez crescer amores ímpares. 2009 é um ano ímpar. 2009 não quer ir embora. ele sabe que foi bom. mas o que chateia ele, é que 2010 será melhor, e 2009 é meio competitivo. 2010 vem com Copa, eleições e por aí vai... ano par. trará pares de coisas boas. 2009 chorou pouco eu diria. as lágrimas ficaram mais quietinhas. 2009 calou-se em momentos oportunos. 2009 encontrou uma paz e uma leveza. 2009 trancou a ansiedade no ármario e as inseguranças no baú. 2009 escreveu muito, e redescobriu um caminho lindo. 2009 viu cenas em palcos, que jamais se apagarão. 2009 criou cenas em palcos que entram pro álbum da vida. 2009 comeu muita pipoca. 2009 reafirmou que afinidade e cumplicidade, são raridades imprescindíveis. 2009 teve preguiça de burrice. 2009 mandou a inveja pastar. 2009 quis se preservar. 2009 vai acabando sob o véu do mistério. 2009 vai acabando com o sabor do beijo. com as borboletas na barriga. com as doces incertezas da vida. 2009 foi saudável até o fim. meio alérgico, mas isso já se espera sempre, e 2010 dificilmente fugirá à regra. 2009 encerrou uma história longa, que não queria se encerrar. 2009 reescreveu páginas, reeditou planos e sonhos, realizou desejos, bobos e sérios. 2009 teve sensações incríveis. 2009 sentiu. sorriu. debochou. tirou onda. pegou sol. viajou muito. ganhou dinheiro. perdeu dinheiro. fez promessas. esperou menos e agiu mais. confiou em si mesmo. 2009 foi um ano ímpar. 2009 já fica na memória, por uma série de momentos. 2009, agora chega, vai embora por favor, que todo ano, quando chega no fim cansa, e todo ano que a recém inicia não caminha direito. então é preciso que 2010 fique mais ou menos em pé, e a gente sabe que isso acontece de maneira efetiva só depois de fevereiro, mas o fato é que, eu terei que pegar na mão de 2010 logo no início, porque já tem muita coisa acontecendo, e ele vai ter que aprender a andar mais rápido, mas o Senhor, 2009, precisa jogar a bengala pro alto e ir ter na janela da memória, porque esticar vida, não faz bem não!

ps: esqueci de que 2009 veio cheio de acordes novos, embalados por um violão velho, que estava fazendo década de aniversário, e nunca havia sido tocado. 2009 tirou a preguiça de lado, e finalmente aprendeu a tocar. já tem três baladinhas treinadas, e vai se despedindo com um violão novo, e promessas de que 2010 as baladinhas se multiplicarão!!!! maior prova, de que, persistir numa vontade é sinal de realização!

Tuesday, December 22, 2009

sobre a saudade

Eram dois, e bem escondidos. Traçavam planos, para jamais deixar o anonimato do olhar alheio. Não sabiam ao certo onde iam parar, mas caminhavam. Duros. Tortos. Presenciaram uma ausência momentânea, dessas que bagunça a rotina, o dia a dia, e que causa uma certa chacoalhada nas borboletas do jardim. Ela achou bonitinho no começo, mas depois achou esquisito. Ele tentava driblar a distância. Ela passou a ficar incomodada, quando viu que driblar a distância, estava tecnicamente falível. Então a ausência se colocou entre eles, de maneira perturbadora. Ela tinha que imaginá-lo indo dormir, comendo, saindo, distribuindo seu sorriso e seu charme a todos do caminho novo em que pisava. Ele sentia seu perfume, ouvia sua voz, e até confundia-na entre as pessoas alheias que lhe cruzavam o caminho. Ela precisava das palavras dele. Dos seus suspiros, mesmo que virtuais. Ela precisava do mínimo de presença dele, para não se desvencilhar de si própria, querendo livrar-se da agonia que lhe invadia o peito todo. Ele, morria de medo que ela sumisse, ao mesmo tempo que estava sendo feliz. Era uma ausência que passaria, mas que poderia mudar tudo. Era tempo de estarem juntos. Era tempo de estarem perto. Mas andavam, cada um a seu modo, vivendo aquele momento, da maneira que podiam. Se tudo não voltasse ao normal, é porque deveria ter sido assim mesmo. Mas enquanto isso, até parecia que ela preferia voar, porque a saudade que sentia, lhe prendia tanto ao chão, que lhe causou pânico!

Monday, December 21, 2009

pleno pensamento

São tantas e nehuma, ao mesmo tempo, que me paira a sensação de não querer nada. Aliás ela tem pairado mesmo, desde um tempinho já. Mesmo querendo tudo, não quero nada, porque já tenho. Me diziam dessa coisa de plenitude, mas nunca achei que se pudesse alcançar. Sempre imaginei, algo como um Deus, que existe para aplacar as dores e regar a esperança, mas que no fundo, é cada um e nada mais poderoso do que o que se leva dentro. Mas vamos combinar, que nesse mundo de pessoas frágeis, crer em si mesmo não é tão consolador quanto crer num todo poderoso que tem a varinha mágica dos milagres salvadores. Assim sempre confiei que a plenitude fosse algo inventado, a ser alcançado por fora, tipo a felicidade, só pro povo ter porquê lutar. Porque de novo, descobrir que tudo isso vem de dentro, deve desanimar muita gente, que mal tem ar puro nos pulmões pra oferecer pra si mesmo. O povo anda fumando muito, e entornando milhares de porcarias para dentro de sí, como vai perceber que o movimento é o contrário do que acostumou-se a crer? Então não se pede a Deus, mas sa i mesmo? Então plenitude e felicidade não se alcançam no fim do arco íris, mas constrói-se, e acima de tudo, reconhece-se dentro de nós, em nossas mortais vidas?
Qual o quê, acho que o mundo não esperaria 2012 pra acabar, acabava agora, numa onda de suicídios, que faria dos seres humanos, uma raça extinta por livre e espontânea vontade, ou por falta de força de encarar que é sua própria sustentação. Aliás, esse bando de previsão de fim do mundo, deve ser reflexo do desejo de que esse mundo, assim como está, acabe mesmo, e só sobre quem realmente seja capaz de reconstruir tudo de maneira mais amena e leve.
Ando revendo muito meus pensamentos e opiniões. De maneira que plenitude perdeu o peso de uma palavra que designa algo a ser alcançado, talvez, somente no fim da vida. Mas não é fácil assumir que se está em um momento pleno, porque as pessoas destilam aquele sorrisinho de quem gostaria de viver o mesmo, mas não crê que você possa, tão jovem e tão cedo, viver de fato. Isso porque, pra elas plenitude não deve ser o mesmo que eu experiencio agora. Talvez seja uma quimera, uma utopia, um tóten imaginário. Algo que elas não alcançarão, caso contrário não terão mais porquê viver. A diferença, é que eu descobri que a vida, por mais planos que se tenha, se vive a cada hoje, e nada mais. Eu exijo menos dela, por consequência de mim mesma, e assim, ela até me dá mais que eu espero. Na verdade ela dá o que ela pode, e é sempre mais do que eu espero, porque eu espero cada vez menos.
Por isso, consigo dizer, sem medo, que 2009 se despede pleno. Pleno pra mim, dentro da minha noção de plenitude. Dentro do momento da minha vida. Aquela coisa de texto e contexto! Mas o fato é que segue-se bem nos planos, nas surpresas, e no coração. Finda-se o ano com ar fresco de carinho, de realização, de encontros lindos. E a saúde vai bem, e o dinheiro não falta [pode não sobrar, mas faltar não falta], e os problemas existem, mas a gente supera, e as frustrações estão aí, mas na maioria das vezes, somos nós mesmos quem as construímos, e a vida é linda, pra terminar o texto bem clichê!
Porque, se tem uma preguiça que me assola ultimamente, é a da reclamação. Nem meus grandes amigos eu tolero reclamando. Cansei de reclamar. A gente deve é abraçar o que nos chega, e fazer disso um caminho, nem sempre um degrau. Porque subir, é uma metáfora capitalista de sucesso, e eu não tenho síndrome de alpinista, muito menos de balão, que além de subir, estoura!

Sunday, December 20, 2009

o peso do outro

Estranho isso das pessoas acharem, que têm absoluta noção de quem é você. Todo mundo quer saber mais e melhor que você dos seus defeitos, qualidades, caminhos, tropeços, sensações, opiniões... Acho que é por isso, que eu sinto necessidade de ficar a sós comigo, algumas vezes. Nesses momentos eu experimento a sensação absoluta de ser o que eu sou, pra mim. Sem expectativas, sem promessas, sem máscaras, sem mentiras, sem hipocrisia, sem tentativas, sem necessidades, sem desvios, sem fingimentos, sem desejos...
As pessoas gostam da gente, parece-me, sempre com alguma expectativa a ser alcançada. Nem me incluo fora dessa não, pois sou humana e fadada aos mesmo erros. Mas me irrita ver que as pessoas constróem uma imagem sobre você, e acreditam nela de maneira tão fiel, que mal percebem o quanto você já não corresponde mais aquela imagem. Eu sou a favor de ir me moldando e me adaptando, conforme os ventos, não que inexista uma linha, uma meta, um desejo, mas é possível perseguí-los, sem me emoldurar num cimento quadrado, que me manterá fixa e presa a mim mesma. Sou a favor de que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo. Então porque as pessoas não podem me ver assim?
São essas expectativas absurdas que criam os abismos. Eu vou perdendo a vontade de quem não me vê de verdade. De quem não se importa comigo, apesar de suas expectativas. Quem coloca a sua visão sobre mim, acima de mim, não me nota, não entra na minha vida, e fica sem saber de nada.
É por isso, que eu prefiro passar mais tempo calada que falando. É por isso que eu prefiro ficar na minha, onde eu sei que vai ser mais real e mais sincero. Definitivamente, eu não quero nem nunca quis agradar ninguém. Dificilmente deixarei de fazer algo que eu queira, porque isso será a maior decepção de quem me jura amor. Eu não sou do tipo que precisa de aprovação. Nasci atrevida, e sem ligar pro que os vizinhos pensam. Aliás, eu sempre pensei, se os vizinhos pensam algo ao meu respeito, deve ser porque pensar sobre suas próprias vidas deve ser monótono ou provocar dor de cabeça.
Quer saber, ligar o foda-se é minha meta para 2010. Preocupar-me menos com as pessoas que eu me preocupo, pelo amor que tenho a elas, vai ser um grande passo na minha estrada. A vida é assim, não dá pra seguir adiante, se a gente se prende a culpas e obrigações, que só nos fazem andar pra trás.
2010 que venha leve, mais ainda, e que eu possa seguir em frente, sem levar peso dos outros!

Obrigada!

Thursday, December 17, 2009

resquícios de futuro

Talvez porque se apaixonar seja um ausentar-se de si mesmo, e ir ter com o outro o tempo todo, em pensamento. Talvez porque o mundo se estivesse abrindo a ela, como flor que desabrocha, e as possibilidades se mostrassem como doces em olhos de criança. Talvez porque não servisse praquilo. Talvez porque não entendesse. Talvez porque a imagem do fim do dia, lhe tenha despertado algo, que ela vinha esquecendo. Talvez porque sua idéia de caminho fosse forte. Talvez porque sua intuição tivesse disparado em mil trombetas. Talvez porque preferisse apostar no incerto. Talvez porque fosse fugaz. Talvez porque gostasse tanto. Talvez porque tivesse medo. Talvez porque simplesmente, percebesse que não conseguiria. Talvez porque o olhar que cruzou o seu, naquele fim de dia, lhe houvesse roubado a possibilidade de escolher no momento.

É assim que ela andava. Um pé no hoje, e outro no futuro que lhe havia despertado aquele olhar, aquela forma, aquele jeito. Havia, alí, algo de mistério, algo inexplicável, que se chocou com ela de maneira inevitável, embora ela não quisesse. Havia alí, talvez, a resposta das perguntas anteriores, e dos presságios estranhos no centro da cidade. Encontrou naquele olhar, algo de familiar, como se chegasse, finalmente, em casa!

Sunday, December 13, 2009

diferente

Não, nem sempre. Mas agora sim. Ou amanhã. Talvez a vida toda. Eu gosto assim, desse jeito. Não dá vontade de tirar um pingo que seja só dos i's que a gente escreve. Nem colocar nenhum ponto final, em qualquer que seja a nossa frase. Não corriqueira esta fala em mim, mas é doce. Poderia por mil anos correr cantando, e pisando os pés nessa areia invisível. Poderia mil anos estar do lado, que eu não sentiria pressa. Aliás, é essa falta de pressa que me assusta, e ao mesmo tempo me encanta. É esse não desespero que me desespera. É esse encontro de tudo e nada. É essa ausência de vontade de oráculos e bilhetes da sorte. É esse não precisar de sorte. Pelo simples fato de que somos a resposta a nós. Por mais que eu brinque de fugir, essa é a primeira vez em que não deixo a brincadeira se misturar com a realidade. É a primeira vez que eu brinco mesmo. Não fujo. Não tem essa pressa. Não tem essa necessidade de desenlace. Ao contrário. Existe sim, é uma imensa vontade, de chegar bem perto, de qualquer caminho que me aproxime ainda mais, de todo esse universo. Eu ouço as pessoas reclamarem, e eu sorrio disfarçadamente. É um porto seguro e é uma montanha russa. É exatamente do meu tamanho. Agora eu lembro das imagens e sensações que me povoavam por dentro, tempos atrás. E eu sentia que chegava, mas não sabia a hora. Eu enganei a espera, pensando encontrá-la em outros rostos. E de surpresa a espera me pega desprevenida. Me abraça. Me chama pra dançar um música inusitada. E eu vou descobrindo que a minha intuição até me assusta. Eu fico confusa, pensando: até que ponto eu já não esperava certo, ou até que ponto eu criei você, ou até que ponto é tudo uma grande casualidade?!
Não sei. E ninguém vai entender nada disso. Porque é tudo muito dentro de mim. E dentro de mim, não costuma existir uma ordem para as coisas!

Beijos!

Friday, December 11, 2009

sobre os fins e os inícios [conversas de doido]

Fim de ano. E era um monte de gente na rua. Comprando, consumindo, se estressando. Era um cansaço desses, que só dá pra se livrar indo pro meio do campo, ou da selva. Irrita. Fim de ano é uma coisa que irrita. Pronto, já tenho algo pra responder no Irritando Fernanda Young!

- Sim, fim de ano me irrita!

Foda-se o sapato novo. Foda-se tudo. Será que não dava pra fazer uma inversão aí? No fim do ano todo mundo doava alguma coisa. Ou se doava pra alguém. No fim do ano, todo mundo ia meditar, ao invés de carcar a mão na buzina do carro, de maneira absolutamente arbitrária, e sem resolução! Fim de ano eu mandava todo mundo pra roça, pro meio do nada, viver só com o que de fato necessita - se o mundo fosse meu eu mandava.

Não, sabe que no início eu preferia o início?! Todo e qualquer relacionamento só valia pelo início. A sensação na boca do estômago, de que o mundo vivia alí. Os primeiros olhares, encontros. Tudo novo. Eu era adepta do use, e descarte logo. Uma capitalista do coração. Mas aí, até nisso eu fui me tornando mais, como eu diria, dessa gente que usa até gastar, até furar, se é que um dia fura mesmo. Hoje, que ainda não é no fim - então isso pode mudar de novo - eu gosto é de quando o início nem se faz lembrar. De quando a intimidade é tanta, que você não é ninguém mais, além de você. Gosto de já saber algumas coisas, e já poder muitas outras. Amo a sensação de conhecer alguém, de ter alguém ao lado, por tempo indeterminado. Confesso, que tenho até preguiça do início. Então quando um relacionamento, que já havia ganho a vez da intimidade, chega ao fim, eu até suspiro, mais de preguiça de um novo início, do que de coração partido. É que cansa começar tudo de novo. Descobrir gostos, manias, olhares, sorrisos. Desvendar as entrelinhas. Dizer as primeiras palavras impactantes. A primeira dormida perto. Isso tudo de primeira coisa, hoje em dia, me cansa um pouco, eu gosto de já me sentir à vontade! Será que meu coração anda sedentário? Creio que não, porque ele vive aprontando na meia maratona, só que ele anda preferindo o meio da corrida, não o início.

Início de ano também me irrita, porque todo mundo acha que a vida vai mudar. Porque não acham sempre? Porque o otimismo morre depois do carnaval? Aliás, adoro fim de carnaval. É aí que o povo cai na realidade, e se joga na vida. Mas também começa a reclamar.

Iniciar e terminar um texto é difícil. Uma peça de teatro idem. Uma vida ainda mais.

Início e fim! Vai ver que é por isso que todo mundo sempre prefere o recheio!

beijos

Thursday, December 10, 2009

um texto novo

Um texto novo quando nasce, parece um filho! A gente quer deixar ele pronto pro mundo! Aí mostra pras pessoas, que dão seus pareceres, e alguns a gente acata, outros não. Porque sendo que nem filho, tem coisa que a gente quer ajeitar, porque é falta de educação mesmo, e tem outras que a gente faz questão de manter, porque faz parte da personalidade, e a gente preserva isso!
Um texto novo quando nasce, apesar de já ter nascido, nos causa ansiedade, porque queremos logo que ele ganhe o mundo, e se relacione com as pessoas. Queremos ver nosso filho transformando o mundo por onde passa. Ao mesmo tempo já dá saudade, porque a gente passou dias e dias com ele, vendo-o crescer e tomar forma, e de uma hora pra outra ele ganha vida, tá prontinho, e a gente não pode mais fazer nada, além de apreciar.
Escrever tem sido a possibilidade de fazer, pensar e curtir teatro mais vezes por ano, de presentear amigos, de criar as histórias que eu tenho vontade de mostrar pro mundo. De tentar fazer do teatro, um espaço de verdades, sentimentos e delicadezas, um lugar do qual as pessoas saiam diferentes do que entraram. Utopia? Pode ser, mas é assim que sigo vivendo!

Beijos!

Wednesday, December 09, 2009

carta de despedida

Ele olhava pra mim num misto de cansaço e alegria entre os dentes. Bonito, cheio de histórias pra contar, muitas paixões tinha vivido, e agora andava calmo, embalado numa musiquinha que lhe fazia bem. Os olhos era de garoto travesso, que havia aprontado muitas. Me disse de suas aventuras, o quanto tinha viajado, o quanto tinha realizado e plantado. Aprendeu que era importante colher, mas não tinha ansiedade ao dizer isso. Sabia que o tempo certo chegava, e o importante era se doar à plantação, semear tudo com amor e respeito. Ele parecia ter encontrado uma certa paz interior, um equilíbrio. Falava da leveza com muita intimidade, com cara de quem havia sido responsável pela consolidação de uma leveza inabalável.
Ele olhava pra mim, e sabia no que eu estava pensando. E não dizia nada, só ria. Aquele sorriso de gente que gonga, que zoa, que ironiza, que faz graça. Ela sabia que eu gostava disso. Ele me olhava como quem diz: viu só? "Você não esperava por metade do que eu te contei né?". E realmente, eu não esperava!
Ele perguntou o que eu faria quando ele estivesse prestes a partir. Disse-lhe que ainda não pensava nisso, e no momento eu teria alguma idéia, ou não. Ele sorriu mais uma vez, como quem se orgulha de sí mesmo. Olhou bem fundo nos meus olhos e entregou-me um pedaço de papel. Em seguida saiu pela porta, parecia que não ia longe, mas se afastava para que eu pudesse ter a tranquilidade necessária para desfrutar de suas palavras:

"Eu te ajudei, e te trouxe umas coisinhas que te faltavam. Sempre fica faltando algo, mas eu queria pedir desculpas por alguns momentos que passamos juntos. Eles foram necessários, para que hoje pudéssemos nos olhar nos olhos assim, com essa energia de quem se conhece e cresceu junto, mas mesmo assim, fiquei aflito, achando que você jamais me olharia nos olhos. Queria lhe pedir, que recebesse meu amigo, do mesmo jeito que me recebeu. Sem exigir dele, coisas que você não exigiria de você, e como você, às vezes, superexige de si mesma, exija menos ainda. Ele vem, e vem novo, e vem inteiro. Eu não sei o que ele traz, ou até sei, mas não é hora de você saber. Só sei, que nada será tão diferente, nem tão igual, e que as surpresas vêm a galope mesmo, como você já bem reparou. Algumas coisas você vai conquistar, outras não.
Você se despede de mim feliz, eu vejo isso. Cansada, porque de fato, eu super lhe explorei nos últimos dias, mas foi por um bem maior - o seu! Mas vejo que você está serena, leve, feliz, realizada, otimista como sempre, e com a sensação de viver cada vez mais. Isso me deixa muito feliz. Espero que sempre se lembre de mim, com olhos de suspiros e saudades boas. Me despeço te deixando alguns presentinhos. Você sabe quais são. Cuide deles, eles cuidarão muito bem de você. Acredite, eu não troxe nada por acaso, e você merecia cada coisinha. Agora, quando eu deixar, descance, e vá à praia, veja um filme, beije, ame, sonhe... Aguarde meu amigo chegar em clima de ternura, e receba-o de portas abertas. Ele vai entrar e se esparramar, porque acredite, ele é mais folgado que eu, mas eu lhe garanto, ele te fará imensamente feliz!

ps: talvez ele bagunce um pouco algumas coisas que eu arrumei, mas isso faz parte, depois é só juntar e arrumar de um jeito diferente! Ok?

Beijos com carinho, do seu ano que está passando!
2009".

Tuesday, December 08, 2009

ufa

No meio da confusão, presente que se embrulha com papel não tá valendo. No meio do caos, da correria, do excesso de trabalho, do excesso de projetos, do excesso de vida, presente que se pega com as mãos tá em baixa.
Gosto mais é dos segundos, minutos e horas de calma. Da conversa que flui, do olhar que busca, da mão que segura firme. Gosto do comprometimento com a liberdade, com o respeito, com o carinho. Gosto de quem segue ao meu lado, mesmo sabendo que eu sou maluca de pedra. Gosto de quem não tem medo, e de pra quem eu posso assumir que tenho medo. Gosto de não precisar usar máscaras, não me preocupar com a hora, não me aborrecer com superficialidades.
E quando a gente encontra esse tipo de coisa, o melhor é desfrutar!
Então dá licença que é exatamente isso que eu estou fazendo. Foda-se o que estava escrito na cartilha, de hoje em diante, ela mudou de maneira que a felicidade vem antes de qualquer outra expectativa!

Cansada, porém feliz!

Thursday, December 03, 2009

inteireza, moço

"A vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho." Guimaraes Rosa

E é assim que devia de sê a vida, sabe moço. Ninguém nunca que podia sê pela metade, em nada que fosse e fizesse. Ninguém nunca que deveria não tá inteiro. Eu gosto é de intensidade e de inteireza. Eu gosto é de olhá nos olhos. Eu gosto é de pegá na mão e apertá forte. Assim a pessoa sabe que eu to ali, só com ela. E a cabeça moço, devia sempre de tá no lugar onde tá o pé, o coração, o olho. Essa coisa de cabeça voando só quando a gente tivesse sonhando, ou fazendo nada, qué dizê, quando a gente tivesse em momento de voá a cabeça mesmo. Eu não entendo moço, essa coisa de tá aqui mas não tá. Essa coisa de não sê completo. De não gastá tudo no presente, até a última gota do sentimento. Porque a gente dorme, e noutro dia acorda com tudo novinho em folha. Então que medo é esse de ficá sem? Coração não é papel de dinheiro que voa, gasta, acaba, perde. Coração tá sempre aqui batendo no peito. Forte e fraco. Mas tá sempre. E coração segue o amor. E o amor moço, é sempre agora. Eu to de birra com quem pensa mais no amanhã, e mais birra moço eu tenho, de quem pisa em qualqer chão querendo tá noutro. E maior birra moço, é de quem vive a vida pela metade, e olha tudo com olho nublado. Assim quero não!

A minha singela homenagem ao Guimarães e às pessoas, todas elas, que se entregam em tudo o que fazem! Eu acho isso lindo! E a vida é boa!