Thursday, October 15, 2009

na janela

Deixou a janela semi aberta, e recebeu o vento respingando chuva no seu olhar. Respirou fundo aquele aroma de nostalgia e lembranças. Virou barco rumando para ilhas próximas, dentro do seu coração. Desejou por um segundo, ter vivido outra vida. Desejou ter ficado ao lado de um grande amor que deixou escapar, desejou ter marcado um "x" na questão "c". Calçou suas pantufas rosa, lembrou que eram presentes de sua avó. Sua avó tinha cheiro de perfume florido, desses que invade a casa toda em dia de sol, fresquinho. Sentiu saudade de estar ao lado dela, e lhe falar sobre suas angústias, receber lições sobre o tricô e sorrir muito, tanto a ponto de se perder e não saber mais qual sorriso era o seu e qual era o da avó. Ali havia uma cumplicidade que não conseguia ter com mais ninguém. Ali havia uma saudade e uma ausência, que jamais seriam saradas, ao longo de sua vida. Pensou um pouco sobre esse estado de permanência em vida, que a morte traz. Jamais veria a avó de novo, não da mesma forma, podendo tocar. Seu cheiro, vez ou outra, adentrava pelo apartamento, e ela sentia que era um cafuné gostoso lhe caindo na nuca. Sorria, mas mesmo assim, sabia que não poderia compartilhar. O que lhe doía é ela não poder fazer cafuné na avó, porque nem sempre na vida, o melhor é receber. Queria de novo seus dedos naqueles tufos de algodão lilás, que provocavam aquele risinho tolo e descomprometido, aquele risinho da avó, que era feito chave de casa, e trazia conforto. Será que um dia ela seria avó? Não sabia. Pensou que talvez devesse comer alguma coisa, mas sentia-se tão ilesa à fome, que parou no meio do caminho. Olhou tudo em volta, sonhou com um lugar novo. Repetiu para si mesma a imagem da avó. Aquele dia seria todo seu e dela, e da nostalgia que trazia no peito. Da vontade de fazer cafunés e se perder em risos. Queria se misturar a algo que pudesse lhe dar a sensação de pertencer. Tentava pertencer a sí mesma!

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