Thursday, July 09, 2009

pela manhã

Ela acordou e sentiu o peso do mundo lá fora. Guardava dentro de sí uma sensação tão genuínamente leve e viva, que desajava nem ter acordado, mantendo-se ilesa ao mundo. Abriu a janela no ímpeto matinal, e junto com o sol deixou entrar o peso do mundo. Tarde demais. Sua sensação pesou-lhe tanto ao peito, que desejou gritar, chorar, cuspir tudo o que houvesse engolido. Ainda nem havia tomado café. Percebeu o quanto era mais difícil livrar-se das coisas invisíveis. A subjetividade lhe rondava e lhe tirava o frescor. Desejou ser pedra, sapato, rolha de vinho. Desejou secretamente não ter vida, e assim permanecer ilesa ao peso do mundo.
Perdera a fome que carregava. Abrindo a janela parecia ter comido a alma de cada um que passava lá fora. Algumas demasiadamente massilentas. O estômago estava embolado. Água? Talvez a quisesse, mas não tinha certeza se aquela água era feita do mesmo material que seu corpo. Talvez a incompatibilidade da água lhe fervesse o sangue. Talvez ela não suportasse.
Desejou pegar o telefone e ligar para uma amiga. Pensou em qual delas lhe entenderia nesse exato momento. Desistiu e chegou a conclusão de quem nem mesmo aquela, com quem trocava pequenos fragmentos de alma, num fluxo contínuo e fraterno, poderia lhe entender naquele momento. E pensou o quanto isso a tornava ainda mais sua amiga. Só os amigos verdadeiros poderiam não entender sempre, e ainda assim confortar. Devolveu o telefone ao gancho. Vestiu uma roupa sem nexo, onde a blusa e a calça não haviam sido feitas uma para a outra. Ia calçar os sapatos, mas preferiu ficar descalça. Decidiu que naquele dia estaria em estado o mais primitivo que alcançasse. Decidiu naquele dia ficar sem saber de nada, nem ninguém. Decidiu que o peso do mundo ficava para mais tarde.
Ela descalça, andava desforme, pela rua. As pedras machucavam. Os pés sorriam!

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