Saturday, June 20, 2009

matei meus bichos


Não vou começar explicando, porque ela mesma dizia que viver ultrapassa qualquer entendimento. Clarice. Sempre tenho medo de ver peças ou qualquer coisa que se inspire, baseie ou adapte suas palavras. Mas essa peça que acabei de ver me insinuava bons presságios. Porque a proposta tinha a ver comigo, porque uma das atrizes - Mariana Lima - eu gosto muito, porque era pra criança, e se fosse seguir mesmo a Clarice, ia ser mais inteligente que peça pra adulto, porque criança merece muito mais respeito na lógica pura dos fatores.
E de fato foi. A mulher que matou os peixes e outros bichos era o nome da peça. O livro da Clarice dos peixes eu nunca li, mas a lógica da Clarice eu amo, eu respiro, eu suspiro e eu deslizo. A mulher esqueceu de alimentar os peixes por três dias, e eles morreram. Quam esquece MATA. Isso bateu fundo na minha alma. Até escrevi no meu celular essa e outra frase, justamente pra não esquecer, e portanto, não matar o que havia surgido em mim.
Tem gente que faz oftalmologia, tem gente que escreve, tem gente que ganha pra molhar a planta, tem gente que canta....faça, porque quem faz o que gosta fica sempre com o coração quente. Tapa na cara. Na minha cara. Meu coração anda sempre aquecido, às vezes eu me perco dele. Mas que nada, o que vale é a preciosidade de encontrar o que pode nos mover pelo campo de algodão mais solitário do mundo.
Então o moço disse que quando estivéssemos tristes - eu e as crianças - nós deveríamos procurar alguém pra conversar com a gente, alguém que nos ouvisse. Um amigo. Quem tem um bom amigo......Foi NESSA hora que eu quis ter ao meu lado a Raquel, o Meco, a Ana, a Luluca, a Melinha, o Creiso, a Meiroca, a Ila... A Grazy, queria a Grazy pra gargalhar com a Clarice e comigo. Aqueles com quem eu divido uma certa poesia, um certo conforto, um lugar comum. Aqueles que me fazem um pouco tartaruga. Porque onde quer que eu vá, por conta deles, carrego minha casa comigo! Viva!!!!!!!!!!!!!!
Eu me chamo chapéu mexicano.
Movimento. Partitura. Rock. Som. Música. Bagunça. Caroços da manga [interrrrna] variados. TEATRO.
Teatro pra criança é coisa séria. Seríssima. Ando entrando em contato com esse mundo aqui no Rio. Porque escrevi um texto que estreia em breve. Porque atuo noutro. Porque quanto mais verdadeiro for, mais chega.
Hoje eu ví teatro do tipo que eu gosto. Do tipo que chega. Que chora. Que ri. Que assusta. Que ousa. Que é banal. Que mistura. Teatro que é vivo e faz a gente sair com vontade de viver. Aquele tipo de teatro que tem por compromisso envolver e comover. Ensina nas entrelinhas. Tem nos detalhes o maior comprometimento descomprometido com o que realmente interessa. Não traz regras claras, nem uma moral, nem mesmo a rebeldia de jogar na cara alguma coisa sobre algo ou alguém. Mas despeja no espectador uma avalanche de de tudo o que realmente importa nessa vida, e o faz sentir-se parte - mesmo quando ele fica sentado aparentemente imóvel. Como diria Laban, o não movimento não existe. Minha versão mestrado!!!!!!!
Ufa.
Saí dali assim viajando, sorrindo, amando ser quem eu sou e fazer o que eu faço. Adorando ter ido sozinha e lamentando não ter os meus, os únicos que somariam a experiência. Saí sorrindo. Cheia de tudo. Cheia de vida. Quase explodindo. Quase querendo virar uma galinha. O ovo.o ovo. o ovo. o ovo. o ovo. o ovo.... [repita sucessivamente e veja que através do ovo a galinha pode voar]. Asas são dispensáveis.
Comprei pipoca. Andava. Encontrei conhecidos. Dei oi. Recomendei a peça. No meio do caminho tinha uma pessoa com fome. Pediu um pouco da pipoca. Estendeu as duas mãos em forma de concha. Eu ia colocando um pouquinho, quando resolvi dar o resto do mais de meio pacote de pipoca quentinha que eu carregava. Eu pensei: como eu vou saber o tamanho da fome dessa pessoa? E se o meu pouquinho não for o suficiente. Esse negócio de medir fome me fez querer dar tudo. Dei o que tinha.
Agora chegou a hora de colocar em prática meu projeto pessoal. Pessoal e INTRANSFERÍVEL. Comprometido comigo. Que vai ter um pouco desse blog. Um pouco de mim. Um muito do meu trabalho. A minha escrita. A música. Aquelas que eu já fui e as que ainda não ousei ser. Muito detalhe comprometido com o descompromisso de viver!

Porque meu coração é quente, e motivação eu aprendi a inventar - desde o dia que um dia a minha resolveu sair correndo. E eu resolvi guardar pra mim, no meu silêncio curioso, o restante dessa sensação que me aquece, porque se eu falo, ela me escapa, e só por hoje resolvi ser minimamente egoísta. Faz parte.

Essa peça é de manhã bem cedo por que eu acordei com as crianças ou por que eu não dormi com as crianças. É um bicho de muitas cabeças. É uma grande confusão por que além do infinito caledoscópico de Clarice temos nosso material ali, triturado, mixado nas palavras da mestra. É de tarde, quente, cansada, suada, malhada na labuta do dia a dia de produzir uma peça com coração quente pra crianças muito sensíveis e inteligentes, e adultos também. É de noite cedo com saudade de quem já foi, falando no telefone com a Cristina, acertando ponteiros, dando papinha e peitinho e rindo de si mesmo. Sim, rimos muito da nossa infinita cara de pau, de nossa disposição para a loucura, para brincar e errar.
Desculpe a bagunça, o transtorno, o politicamente incorreto, as mortes, os peixes... é que vida...não é bolinho...mas é cheia de surpresas, milgares, alegrias e rock and roll.

Divirtam-se.
Mariana Lima.


3 comments:

Lu Holanda said...

como queria estar contigo!!!

aiaiai


...

Raquel Stüpp said...

coisa boa ver teatro e sair assim!
faz tempo que isso não me acontece..
tem ocorrido muito mais com cinema.
mas qnd acontece é bom demais né?
beijo grande

zumbi hiperativo said...

como a lu, queria tanto estar contigo la. a gente segurava a mão uma da outra. e depois saia falando sem parar e rindo histericamente, pq é a nossa cara essa histeria querida.
mas ja fico feliz de ter estado lá dentro do teu coração.
um beijo