Saturday, April 18, 2009

passado maré 0o0o0o


passadomarépassadomarépassadomarépassadomarépassadomarépassadomaré


Saiu pelas ruas molhadas de chuva fresca. Carregava o frescor na alma, e balançava as chaves pela calçada. Se havia fechado o velho baú, necessitava agora jogá-lo além mar. Caminhou até a praia, não tornou a abrir, como imaginava que o fizesse. Apenas livrou-se, como quem joga uma âncora, agora sem correntes que a prendem ao barco. Sim, jogou a âncora fora. Sentia a brisa leve que o mar trazia. Barulho de onde indo e vindo. A vida renovando-se em frente aos seus olhos. Quase tudo lhe subia até o último fio de cabelo, principalmente o arrepio. Observou durante algum tempo o baú seguindo seu rumo em meio a corrente. Pra onde ia? Não fazia idéia, e nem mesmo queria. Enterrou bem os pés na areia úmida, e sentiu algo lhe subir até o umbigo. Sorriu. Levantou e tornou a olhar a praia inteira. A sua praia. Tudo lhe parecia, inexplicavelmente mais seu naquele momento. Não desejou saber as horas, como uma maneira de não terminar com o agora. Talvez se não visse o passar do tempo, ele não passasse. Mas qual o quê?! Já havia parado demais no tempo, nas horas, nos segundos, nos delírios de sentimentos esquecidos e lembrados. No delírio daquilo que a fizera ancorar em praias nubladas. Agora era noite, mas noite estrelada, daquelas que anuncia o sol ardente na pele pela manhã. Desejou correr na direção do que via. Tantas eram as paisagens que via agora. Quanto tempo andara cega? Quanto tempo se deixara amordaçar? Não sentia mais falta do baú, tão pouco das coisas que dentro dele, partiam rumo ao oceano mais profundo. Desejou que seu barco andasse na direção do vento. Queria uma vida mais selvagem, mais à deriva, mais largada de boa. Desejou seu barco todo sereno, em mares cristalinos. Desejou desvendar os mistérios dos segundos seguintes. Desejou a mão, o toque, o beijo. Desejou tudo o que sentia ao deixar o baú pra trás. Desejou viver a sua vida, aquela que ela vivia. Deus as mãos a si mesma, para quem sabe, em breve, dar as mãos ao moço que ela vira em sonho!

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