Thursday, April 09, 2009

fIM

A moça olhou pela última vez a velha parede cheia de retratos antigos - e felizes. Queria deixar o corredor em direção à porta, levando consigo somente os bons momentos. Pelo menos as lembranças ela podia escolher. Na mala, só o que havia de agora, nem mesmo o amanhã ela levava. Que o amanhã ficasse por conta do tempo, do vento, da brisa, do mar. Ela apenas inspirava coisas boas, e sentia que a cada passo novo, tudo seria novo, enfim. Lançava como uma pescadora boas energias como isca de um futuro bom, mas nem se preocupava em recolher a linha, que ela viesse com o peixe que fosse, no momento oportuno. O mais difícil estava feito. Gavetas limpas, sem mais nenhum pó no canto. Casa arrumada, imagens guardadas. Ela saía pela porta da frente, por livre e espontânea vontade. Dessa vez sem deixar partes suas espalhadas pelo chão, sem olhar pra trás, sem nem mesmo guardar qualquer vestígio que fosse. Apenas ia, e ia leve. 
Fora o mais delicada e sensata possível. Observou muito antes de partir, ponderou. Os impulsos passados deram lugar à sabedoria calma da maturidade. O tempo era outro. Tirou o último chapéu colorido que lhe apanhava o chapeleiro, e sentiu por fim, que agora o espaço estava aberto, limpo e livre. Quando ia partindo, viu entrar na casa uma linda borboleta azul. Essa que deu meia volta e resolveu pousar no seu ombro, saindo junto com ela, para voos maiores!

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