Wednesday, April 08, 2009

"eu vim de lá eu vim de lá pequenininho"

Sair de casa - e aí não to falando de sair da casa da mãe, to dizendo de sair da terra natal, sair da pátria, se exilar [espontâneamente ou não] - é uma atitude que traz sempre sensações e certas marcas no jeito de ser de uma pessoa. Eu sou uma exilada desde os nove anos. Se olhar com olhos românticos, tem lá sua poesia, mas isso não apaga o lado ruim. 
Sempre penso como seria hoje a minha vida, se eu nunca tivesse saído de Porto Alegre - pelo menos não até os vinte, porque me conhecendo bem, sei que uma hora saíria - ? Seria de fato uma outra vida, em muitos aspectos. Quando a gente sai da terra da gente - gostando ou não - nosso olhar sobre o mundo ganha um outro tom. Parece que olhamos tudo com olhos de saudade, olhos de quem quer voltar, olhos de quem por mais que ame onde está, está sempre fora de casa. Isso é bom e ruim. Essa sensação de estrangeiro, às vezes faz da vida uma aventura constate, já que tudo está por descobrir, mas às vezes provoca um buraco no qual a gente só cai - cai em prantos pela vontade de sentir-se num chão que tenha a sua cara.
Acho que nem todo mundo tem esse tipo de relação com o lugar onde nasceu, e nem todo mundo tem relação com esse ir e vir, ou mesmo tem relação com a relação que se pode estabelecer com uma cidade. Pra muitos é só mais um lugar onde se mora, mais um chão onde se pisa e por aí vai, mas pra mim não. Cidade pra morar é quase como a minha identidade, meu reflexo, minha alma. Morar em um lugar onde eu não tenha identificação me causa imenso tédio, mesmo que seja breve pra ganhar um dinheirinho e tal [vai lá eu até aguento, mas muito penosamente].
Uma cidade pra mim tem que insipirar beleza [e não vá pensar em clichês, eu acho muro grafitado, e algumas sujeiras urbanas muito sinais de pura beleza], tem que me inspirar vida, movimento, cor. O melhor dia de teste de uma cidade é o domingo. Odeio domingo, e se a cidade fizer do domingo um dia ainda pior, já sei que lá não moro de jeito nenhum. Se a cidade morre no domingo, fica só cinza e vai dormir cedo, eu tenho vontade de me jogar de qualquer andar que seja. 
Cidade pra mim tem que ter feira livre e de badulaques, tem que ter cor misturada, tem que ter verde e cinza, casa e prédio alto, bem alto. Tem que ter barulho, zona, buzina, e um que de por lavar. Cidade tem que ter refúgio, onde pouca gente vai, ou só gente interessante. Tem que ter mistério, tem que ter boemia, coisas que vivam 24 horas, bairros independentes do centro, vida cultural, brisa, natureza, por do sol bonito, gente esquisita, bonita, séria, simpática, feia, performática, todas misturadas na mesma calçada. Aliás, cidade tem que ter calçada larga, ruas excêntricas, centros apanhados de gente. Algum comércio popular. Uma rodoviária com cara de rodoviária. Discos e livros usados por toda parte. Muitos parques e locais em benefício do lazer. 
Tá, cidade boa pra mim sempre tem que carregar um pouco do que Porto Alegre tem de bom, com mais alguma novidade que Porto Alegre ainda não descobriu ou jamais poderá ter. Às vezes a vida leva a gente pra cidade que jamais colocariamos os pés pra morar. Floripa por exemplo; não fosse por meu padrasto talvez só frequentasse como turista, e teria, certamente, perdido tanta coisa boa que por lá encontrei. Odeio e amo Floripa. O que eu odeio quase todo mundo sabe e possivelmente odeia também, então não convém escrever aqui, mas amo porque...
Amo Floripa pelo clima, estações amenas, bem diferente de Porto que congela no inverno e derrete no verão, ou do Rio que não sabe o que é frio [embora os cariocas usem gorro, luva, bota e sobre tudo]. Gosto do jeito manso com que Floripa conquista e expulsa a gente, só pra depois parecer ainda mais linda de longe. Gosto de sentar na Costa e comer camarão, aliás camarão bom só por lá mesmo. Gosto do cheiro de mar limpo, da natureza que é escandalosamente linda, das ruas estreitas e de paralelepípido. Adoro aquele centro que não parece centro e parece mais uma vilinha gostosa. Adoro a beira mar, gente como eu gosto de andar de carro por lá, ou passar uma manhã de inverno no sol ali. Aliás que saudade dos inverninhos à luz do sol em Floripa. 
Comecei odiando Floripa, porque ela veio como uma substituta da minha cidade que eu tanto amava, depois fui aprendendo ali a ter raízes, e de maneira enviezada e dar valor às minhas raízes porto alegrenses, que vistas de longe, pareciam ainda mais bacanas. Em Floripa fiz grandes amigos e conquistei espaços. Talvez um dia eu volte a morar lá, principalmente pelas pessoas, e por um que de refúgio, que só Floripa me provoca, e aqui, por vezes sinto falta!
O Rio? O Rio eu já fui apaixonada, hoje em dia não mais. Aprendi a amar, o que traz também, em diversas vezes, uma pontinha de ódio. Amo e odeio o Rio, e viveria aqui a vida inteira se deixasse, justamente por essa mistura. Todo mundo que me vê hoje diz como eu pareço diferente [pra melhor], mais bonita e mais leve. Entre outras coisas, méritos do Rio minha gente, de verdade. Essa cidade inspira leveza, inspira saúde, inspira, paradoxalmente falando, paz. Aqui eu me sinto de bem toda manhã, só por olhar pela janela. O solo aqui parece fértil de mais, encontra-se parceiros de trabalho muito rápido, as coisas acontecem numa velocidade diferente, e acontecem acima de tudo. Eu acordo num dia que só prometia casa e livros, e me vejo indo parar numa reunião nova, num bar, numa praia, num encontro, numa festa, num teste, numa outra coisa que me leva pra outro lugar. O Rio tem essa mistura de gente de tudo quanto é tipo, que faz a vida parecer uma cena non sense cheia de intervenções multi coloridas. E cada passo na rua é uma cena nova: brigas, gritos, gente correndo, gente andando em câmera lenta, sirene, sirene, sirene, a flautinha do vizinho aqui do lado, macaco no fio de luz, barulho de passarinho de manhã, funck a noite, e por aí vai...
As praias do Rio me dão nervoso, daí mais ponto pra Floripa. O jeito do carioca falar também me irrita, mas pega tãooo fácil, que quando vejo to falando doix, e isso me irrita porque me distancia do meu pampa tãooo amado. 
Tem dias que me pego cantando um Deu pra ti baixo astral vou pra Porto Alegre tchau, ou um Um lugar pra viver sem chorar, é o meu Rio Grande do Sul céu sol sul terra e cor, onde tudo que se planta cresce e o que mais florece é o amor, ou mesmo o hino do meu tão querido time Inter, aí vejo e sinto que por mais que eu ame qualquer lugar no mundo, e por mais que me sinta em casa aqui no Rio ou em Barcelona [lugar que quero ir logo], ainda assim meu olhar vai ser sempre o de quem partiu, o de quem não está pisando no seu chão, o de quem precisa cantar músicas, ver futebol, ou falar num sotaque estranho, pra reafirmar pra sí mesmo e pra quem quiser ouvir, que seus primeiros passos foram dados noutro sítio, tão distante e saudoso... Por mais que me sinta em casa, sempre vai dar aquela vontade de sentir o cheirinho da minha terra, de ouvir a gente que fala como eu [se bem que eles já não acham mais], de pisar nos lugares que outrora viví bonitos momentos e de fato me sentir em casa, na casa que tá lá na certidão e no RG, na casa que tá no coração, na infância, no jeito de falar, na bravura de defender, no jeito de se portar, na cultura, nas tradições, em muitos gostos esquisitos [ao olhar dos outros]. Não adianta, serei sempre estrangeira, sempre em busca do meu porto, que não é seguro, mas é alegre, pelo menos pra mim!!!!

ps: saudade que será matada em breve, gracias...

1 comment:

Lu Holanda said...

Estava com saudades de passar por aqui... ler me fez pensar pq saí de sampa e no que ela me faz falta?
Descobri que tenho imenso MEDO de São Paulo... aiaiai mas como seria bom levarmos nosso trabalho pra lá!!!
bjs queridona, inté brevíssimo.