Wednesday, April 29, 2009

Uma sociedade




























Uma sociedade de fazer perguntas...


Saturday, April 25, 2009

amigas

Nas prateleiras do supermercado procurava a melhor dose de alegria para o momento. Só ela sabia há quanto tempo não se viam, e a saudade gasta que carregava no peito. Já tentava prever as gargalhadas, as piadas, as histórias mil que teriam pra compartilhar pela noite afora. Chegava a coçar o estômago. Compartilhavam tantas e tantas delicadezas, tantos detalhes, tantas palavras aleatórias, que somente entre elas faziam sentido. Na doce confusão do álcool, já tinham chorado amores perdidos e achados. Já tinham escalado escadas de cozinha, lavado cabelos em poças d'água, e guiado carros desconcertados. Gastavam horas ao telefone, dizendo coisas repetidas, sempre com sabor de novidade. Trilhavam em passos de leveza, aquilo que haviam cosntruído numa mistura de descuido com amor. Aquilo que cultivavam com respeito e alegria. Sorriam ao refletir o sorriso alheio e o mesmo o faziam nas lágrimas. Seguravam-se. Quando longe, andavam perto, em pensamento, em hamornia. Tornavam-se velhas, jovens, loucas, corretas, caretas. Olhavam pela mesma janela, sem nem saber. Sabiam-se sem nem contar. As palavras dispensavam, quando no silêncio do olhar liam-se mais do que a qualquer outro. Era um prazer poder andar pelas ruas sabendo que tinham uma a outra, sobretudo, e acima de qualquer interpérie. Lembravam-se das poucas discussões sérias, dos muitos cafés duradouros, dos porres psicodélicos, das roupas escolhidas, dos favores feitos, embrulhados no laço do carinho. Aquilo era uma espécie de amor eterno. Eram amigas. Eram escolhas. Faziam-se saudade. Mas hoje, hoje iriam sorrir e tontear-se no sofá de uma delas, dançando ao som de alguma coisa que veriam no dvd, alguma coisa que servisse apenas como pano de fundo, pro melhor capítulo da série, que elas juntas, escreviam a cada dia.

Às minhas melhores amigas.

Thursday, April 23, 2009

sobre a gentileza

Batom. batom. ba. ba. tom. tom.

a moça tirou o batom da bolsa e escreveu nas paredes do banheiro: foi ele quem não soube amar...

saiu achando que havia descoberto o mundo. deu dois passos e meio. e descobriu, ao encontrar o olhar novo de um moço, que fora ela, na verdade, que nunca o amara, mesmo sabendo...

voltou. resolveu escrever na parede do banheiro apenas que: quando acordar, lembre-se, ela não soube lhe amar...ps: jurou que se fosse possível teria aprendido.

Wednesday, April 22, 2009

Viva São Jorge

Vem sambar na minha cozinha
Que eu te dou tudo o que for
Flor, cachaça e serpentina
Vem comigo meu amor

Samba na minha
Vem acender essa vela
Que São Jorge nem espera
Já vai me atender

Fiz promessa
Rezei reza
Novena
Para o teu amor ter

Vem dançar comigo
Pegar na minha mão
Me ensina teu jingado
Jé tens meu coração

Só não me peça pra ficar longe
Do meu santo que é guerreiro
Entre ele e teu amor
Ele é mais verdadeiro

Acende a vela vermelha
Depois vem dançar 
Acende a vela pro santo
Viva São Jorge

Saravá!!!



Sunday, April 19, 2009

O bicho Papão não é mais o mesmo.

Deixei o Papão sair do armário e se sentir no direito de questionar a decoração do meu quarto inteiro.

Havia construído um mundo todo novo bem longe dele. O mundo novo causava medo, e às vezes o Papão fazia falta, por isso em inúmeras noites achei que ele vindo assustar meu mundo novamente, talvez eu me sentisse mais segura. O tempo passou, e o mundo novo foi ficando deveras atraente. O Papão chegou, e eu nem esperava mais. Foi um susto, junto com ele alguns medos antigos, alguns sentimentos guardados, algumas dúvidas, e algumas partes de mim mesma, que eu havia deixado ele levar. O Papão veio trazendo tudo isso, e a mocinha estremeceu. Voltou a viver no passado/futuro histérico a que ele a remetia - errata: ela mesma é que se mandava pra esse tempo espaço que não existe. Perguntas vieram descendo a montanha, como se tivesse deixado meu ármario desarrumado por muito tempo, acumulando roupa amassada e velha. Como se a neve rolasse, trazendo tudo pra cima da minha cabeça. Uma pilha de neve e roupa velha me sufocando. E agora?! A vida prega umas peças, e parece que reconstitui numa versão pockett alguns momentos dela própria. Em pouco mais de um mês eu vivi quase dois anos da minha vida - passada. E de uma forma full time fui afundando em mim mesma e perdendo a direção. Auto revelações. Medos antigos. Paranóias. Sentimentos. Definitivamente era a vida me cobrando a falta de atitude interna, de tanto tempo, a falta de amor próprio, a falta de vergonha na cara. E agora?! Surtei, pirei, tentei, caí, pulei, gritei. E fiquei sem entender nada. E mais uma viagem no meio do caminho. Fui, mas como essa era a trabalho, me sustentei a maior parte do tempo no espaço/tempo do agora. Ufa, pelo menos, alguma coisa sempre teve seu espaço cativo na minha vida, apesar de. Isso faz sentido na hora do caos. Voltei, e o Papão ainda fora do armário - do meu armário. Talvez sentado na minha cama, não sei ao certo. Minhas alergias todas atacando, alerta vermelho: estamos em pânico meu bem!!! Quando penso que permiti que ele criticasse minha decoração, e pior, que eu quase cheguei a mudá-la. Quase. Preferi mergulhar em mim mesma, antes de tomar qualquer atitude. Mergulhei no meu mar de tosse, manchas brancas irritantes, lágrimas antigas, dores, tristezas, asiendade, baixa auto estima, incerteza, dúvidas, carência... Mergulhei tão fundo, que achei que fosse me afogar novamente. Mas fui tão fundo, que dentro do oceano chamado eu mesma, encontrei o chão, e mesmo sem ar, me senti segura. Subi nadando, com dificuldade. O Papão querendo me dar a mão, mas eu já havia segurado aquela mào outra vez, e ela era muito escorrgadia. Acreditei nas minhas braçadas, que poderiam não ter muita técnica, mas eram sobreviventes. Lembrei de quantas vezes nadei e cheguei a superfície. Quantas e quantas vezes, eu mesma me salvei.

Cheguei à praia. O Papão estava lá. Não era o mesmo, ao mesmo tempo era. Na verdade ele era o mesmo em quase todos os sentidos, eu é que não era mais a mesma mocinha. Pobre do Papão, ele nem me fizera mal algum, o maior monstrinho da história era eu. Eu era minha própria vilã nesse pequeno conto de fadas. Lembrei que eu já conhecia aquele velho Papão que estava ali na minha frente. Finalmente o que eu havia inventado, já tinha ido embora, definitivamente. Ali se encontrava meu velho e bom Papão. Com as mesmas cores que uma vez eu já nào tinha gostado. Pensei que graças às minhas fraquezas, tinha jogado fora minha intuição, e partido rumo a uma estrada que eu já sabia: não ia dar em lugar algum. Tirando os bons momentos, os outros são bem dispensáveis.

Então descobri. Não havia mais pressa. Não havia mais nada. Somente eu. Justificar

Comecei a pensar que ando meio sem paciência pra quem só saiba ver o lado estranho da vida. Quem só critica, quem acha que detém a razão, quem pede calma, que diz: "veja bem, não é bem assim". Admito, estou numa fase pra quem grita de alegria junto comigo, mesmo que exista um lado ruim. Veja bem meu bem: Tudo na vida tem lado ruim, eu você, eles. Mas cabe a mim, somente a mim, enxergar o lado ruim de tudo o que me meto, na hora que eu decidir ver. Aliás, se eu tivesse feito isso há um tempo atrás, talvez o Papão estivesse invadindo sonhos alheios, e eu não teria visto o lado bom, mas teria sido uma ótima "minha" decisão!!!!

Ando no momento das pessoas espontâneas, das pessoas que escutam, antes de despejar opiniões. Na época de quem sorri com a vitória alheia, de quem brilha o olho ao ver o sorriso de alguém. Na época das pessoas que não necessitam saber de tudo, não necessitam ser tão lindas, não necessitam vencer. Como dia Marcelo Camelo: "eu que já não sou mais um vencedor". Quero a glória de viver, e ao lado de quem não se importa em não saber todas as respostas.


Alguém que saiba sorrir junto, tão junto, que a gargalhada se confunde.

Dedicado a mim, a alguns poucos amigos que realmente sabem ser assim, e a um armário que já foi devidamente arrumado, e está esperando roupas novas!!!!

ps: obrigada por me devolver, as partes de mim, que deixei com você - sim às vezes eu me descuido.

Saturday, April 18, 2009

passado maré 0o0o0o


passadomarépassadomarépassadomarépassadomarépassadomarépassadomaré


Saiu pelas ruas molhadas de chuva fresca. Carregava o frescor na alma, e balançava as chaves pela calçada. Se havia fechado o velho baú, necessitava agora jogá-lo além mar. Caminhou até a praia, não tornou a abrir, como imaginava que o fizesse. Apenas livrou-se, como quem joga uma âncora, agora sem correntes que a prendem ao barco. Sim, jogou a âncora fora. Sentia a brisa leve que o mar trazia. Barulho de onde indo e vindo. A vida renovando-se em frente aos seus olhos. Quase tudo lhe subia até o último fio de cabelo, principalmente o arrepio. Observou durante algum tempo o baú seguindo seu rumo em meio a corrente. Pra onde ia? Não fazia idéia, e nem mesmo queria. Enterrou bem os pés na areia úmida, e sentiu algo lhe subir até o umbigo. Sorriu. Levantou e tornou a olhar a praia inteira. A sua praia. Tudo lhe parecia, inexplicavelmente mais seu naquele momento. Não desejou saber as horas, como uma maneira de não terminar com o agora. Talvez se não visse o passar do tempo, ele não passasse. Mas qual o quê?! Já havia parado demais no tempo, nas horas, nos segundos, nos delírios de sentimentos esquecidos e lembrados. No delírio daquilo que a fizera ancorar em praias nubladas. Agora era noite, mas noite estrelada, daquelas que anuncia o sol ardente na pele pela manhã. Desejou correr na direção do que via. Tantas eram as paisagens que via agora. Quanto tempo andara cega? Quanto tempo se deixara amordaçar? Não sentia mais falta do baú, tão pouco das coisas que dentro dele, partiam rumo ao oceano mais profundo. Desejou que seu barco andasse na direção do vento. Queria uma vida mais selvagem, mais à deriva, mais largada de boa. Desejou seu barco todo sereno, em mares cristalinos. Desejou desvendar os mistérios dos segundos seguintes. Desejou a mão, o toque, o beijo. Desejou tudo o que sentia ao deixar o baú pra trás. Desejou viver a sua vida, aquela que ela vivia. Deus as mãos a si mesma, para quem sabe, em breve, dar as mãos ao moço que ela vira em sonho!

novo

Quando o novo parece estar chegando, o melhor é mesmo aquietar todo o resto, e só esperar que chegue bem perto...

Wednesday, April 15, 2009

Sobre o Guimarães que nasceu Rosa...

" Dia da gente desexistir é um certo decreto (...)"

"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice".

"(...)ele gostava de silêncios".

"Já tenteou sofrido o ar que é a saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração...".

"Amor vem de amor".

"Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir".

"(...) O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam".

"A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio (...)".


Grande Sertão Veredas.

Saturday, April 11, 2009

saudade

Saudade; das nossas tardes a três, dos nossos planos divertidos, das nossas artimanhas. Saudade da velha infância, saudade do ontem quando estávamos mais perto, saudade do que há de mais seguro e verdadeiro nessa minha vida. Saudade dos bilhetinhos com poesias e mensagens profundas, pouco entendidos por uma menina, mas hoje tão significativos - ainda bem que guardei. Saudade dos socos, das brigas, dos carrinhos, das lutas de comandos em ação. Saudade de poder dizer "eu te odeio" com o olhar de quem diz "eu te amo" sem medo, por saber que passados cinco minutos, tudo estaria como estava antes. Saudade de quem me conhece pela voz. Saudade da forma discreta de me amar. Saudade do jeito safadinho. Saudade de pegar no colo, de dar suquinho, de ser um pouco mãe. Saudade das performances na porta do meu quarto, das mentirinhas bobas, das discussões filosóficas que não nos levam a lugar algum - a não ser em direção a nós mesmos. Saudade do jeito manso que a gente estabeleceu, onde só no olhar eu sei que há preocupação, amor, carinho, saudade. Saudade de ouvir a voz de preocupação por saber que só me verá no domingo...saudade dessa simplicidade que a divisão de toda uma vida proporciona.
Saudade do ouvido, do ombro, dos conselhos, do apoio - que sempre está presente - dos mimos, da alegria de viver. Saudade do humor tão único, das brincadeiras, da verdade nua e crua. Saudade de brigar, de debater pontos de vista, de discutir política na hora do almoço, de ouvir histórias velhas repetidas vezes, e sempre achar graça. Saudade da histeria. Saudade de ter perto hoje, agora, pra já. Saudade do que já nos dissemos, do que nunca nos dissemos, do que não nos precisamos dizer.



Saudade deles, e de tantos outros. 

Hoje acordei com tantas saudades, que parece que fiquei pequena. Tão pequena a ponto de partir!!!!

Thursday, April 09, 2009

fIM

A moça olhou pela última vez a velha parede cheia de retratos antigos - e felizes. Queria deixar o corredor em direção à porta, levando consigo somente os bons momentos. Pelo menos as lembranças ela podia escolher. Na mala, só o que havia de agora, nem mesmo o amanhã ela levava. Que o amanhã ficasse por conta do tempo, do vento, da brisa, do mar. Ela apenas inspirava coisas boas, e sentia que a cada passo novo, tudo seria novo, enfim. Lançava como uma pescadora boas energias como isca de um futuro bom, mas nem se preocupava em recolher a linha, que ela viesse com o peixe que fosse, no momento oportuno. O mais difícil estava feito. Gavetas limpas, sem mais nenhum pó no canto. Casa arrumada, imagens guardadas. Ela saía pela porta da frente, por livre e espontânea vontade. Dessa vez sem deixar partes suas espalhadas pelo chão, sem olhar pra trás, sem nem mesmo guardar qualquer vestígio que fosse. Apenas ia, e ia leve. 
Fora o mais delicada e sensata possível. Observou muito antes de partir, ponderou. Os impulsos passados deram lugar à sabedoria calma da maturidade. O tempo era outro. Tirou o último chapéu colorido que lhe apanhava o chapeleiro, e sentiu por fim, que agora o espaço estava aberto, limpo e livre. Quando ia partindo, viu entrar na casa uma linda borboleta azul. Essa que deu meia volta e resolveu pousar no seu ombro, saindo junto com ela, para voos maiores!

Wednesday, April 08, 2009

"eu vim de lá eu vim de lá pequenininho"

Sair de casa - e aí não to falando de sair da casa da mãe, to dizendo de sair da terra natal, sair da pátria, se exilar [espontâneamente ou não] - é uma atitude que traz sempre sensações e certas marcas no jeito de ser de uma pessoa. Eu sou uma exilada desde os nove anos. Se olhar com olhos românticos, tem lá sua poesia, mas isso não apaga o lado ruim. 
Sempre penso como seria hoje a minha vida, se eu nunca tivesse saído de Porto Alegre - pelo menos não até os vinte, porque me conhecendo bem, sei que uma hora saíria - ? Seria de fato uma outra vida, em muitos aspectos. Quando a gente sai da terra da gente - gostando ou não - nosso olhar sobre o mundo ganha um outro tom. Parece que olhamos tudo com olhos de saudade, olhos de quem quer voltar, olhos de quem por mais que ame onde está, está sempre fora de casa. Isso é bom e ruim. Essa sensação de estrangeiro, às vezes faz da vida uma aventura constate, já que tudo está por descobrir, mas às vezes provoca um buraco no qual a gente só cai - cai em prantos pela vontade de sentir-se num chão que tenha a sua cara.
Acho que nem todo mundo tem esse tipo de relação com o lugar onde nasceu, e nem todo mundo tem relação com esse ir e vir, ou mesmo tem relação com a relação que se pode estabelecer com uma cidade. Pra muitos é só mais um lugar onde se mora, mais um chão onde se pisa e por aí vai, mas pra mim não. Cidade pra morar é quase como a minha identidade, meu reflexo, minha alma. Morar em um lugar onde eu não tenha identificação me causa imenso tédio, mesmo que seja breve pra ganhar um dinheirinho e tal [vai lá eu até aguento, mas muito penosamente].
Uma cidade pra mim tem que insipirar beleza [e não vá pensar em clichês, eu acho muro grafitado, e algumas sujeiras urbanas muito sinais de pura beleza], tem que me inspirar vida, movimento, cor. O melhor dia de teste de uma cidade é o domingo. Odeio domingo, e se a cidade fizer do domingo um dia ainda pior, já sei que lá não moro de jeito nenhum. Se a cidade morre no domingo, fica só cinza e vai dormir cedo, eu tenho vontade de me jogar de qualquer andar que seja. 
Cidade pra mim tem que ter feira livre e de badulaques, tem que ter cor misturada, tem que ter verde e cinza, casa e prédio alto, bem alto. Tem que ter barulho, zona, buzina, e um que de por lavar. Cidade tem que ter refúgio, onde pouca gente vai, ou só gente interessante. Tem que ter mistério, tem que ter boemia, coisas que vivam 24 horas, bairros independentes do centro, vida cultural, brisa, natureza, por do sol bonito, gente esquisita, bonita, séria, simpática, feia, performática, todas misturadas na mesma calçada. Aliás, cidade tem que ter calçada larga, ruas excêntricas, centros apanhados de gente. Algum comércio popular. Uma rodoviária com cara de rodoviária. Discos e livros usados por toda parte. Muitos parques e locais em benefício do lazer. 
Tá, cidade boa pra mim sempre tem que carregar um pouco do que Porto Alegre tem de bom, com mais alguma novidade que Porto Alegre ainda não descobriu ou jamais poderá ter. Às vezes a vida leva a gente pra cidade que jamais colocariamos os pés pra morar. Floripa por exemplo; não fosse por meu padrasto talvez só frequentasse como turista, e teria, certamente, perdido tanta coisa boa que por lá encontrei. Odeio e amo Floripa. O que eu odeio quase todo mundo sabe e possivelmente odeia também, então não convém escrever aqui, mas amo porque...
Amo Floripa pelo clima, estações amenas, bem diferente de Porto que congela no inverno e derrete no verão, ou do Rio que não sabe o que é frio [embora os cariocas usem gorro, luva, bota e sobre tudo]. Gosto do jeito manso com que Floripa conquista e expulsa a gente, só pra depois parecer ainda mais linda de longe. Gosto de sentar na Costa e comer camarão, aliás camarão bom só por lá mesmo. Gosto do cheiro de mar limpo, da natureza que é escandalosamente linda, das ruas estreitas e de paralelepípido. Adoro aquele centro que não parece centro e parece mais uma vilinha gostosa. Adoro a beira mar, gente como eu gosto de andar de carro por lá, ou passar uma manhã de inverno no sol ali. Aliás que saudade dos inverninhos à luz do sol em Floripa. 
Comecei odiando Floripa, porque ela veio como uma substituta da minha cidade que eu tanto amava, depois fui aprendendo ali a ter raízes, e de maneira enviezada e dar valor às minhas raízes porto alegrenses, que vistas de longe, pareciam ainda mais bacanas. Em Floripa fiz grandes amigos e conquistei espaços. Talvez um dia eu volte a morar lá, principalmente pelas pessoas, e por um que de refúgio, que só Floripa me provoca, e aqui, por vezes sinto falta!
O Rio? O Rio eu já fui apaixonada, hoje em dia não mais. Aprendi a amar, o que traz também, em diversas vezes, uma pontinha de ódio. Amo e odeio o Rio, e viveria aqui a vida inteira se deixasse, justamente por essa mistura. Todo mundo que me vê hoje diz como eu pareço diferente [pra melhor], mais bonita e mais leve. Entre outras coisas, méritos do Rio minha gente, de verdade. Essa cidade inspira leveza, inspira saúde, inspira, paradoxalmente falando, paz. Aqui eu me sinto de bem toda manhã, só por olhar pela janela. O solo aqui parece fértil de mais, encontra-se parceiros de trabalho muito rápido, as coisas acontecem numa velocidade diferente, e acontecem acima de tudo. Eu acordo num dia que só prometia casa e livros, e me vejo indo parar numa reunião nova, num bar, numa praia, num encontro, numa festa, num teste, numa outra coisa que me leva pra outro lugar. O Rio tem essa mistura de gente de tudo quanto é tipo, que faz a vida parecer uma cena non sense cheia de intervenções multi coloridas. E cada passo na rua é uma cena nova: brigas, gritos, gente correndo, gente andando em câmera lenta, sirene, sirene, sirene, a flautinha do vizinho aqui do lado, macaco no fio de luz, barulho de passarinho de manhã, funck a noite, e por aí vai...
As praias do Rio me dão nervoso, daí mais ponto pra Floripa. O jeito do carioca falar também me irrita, mas pega tãooo fácil, que quando vejo to falando doix, e isso me irrita porque me distancia do meu pampa tãooo amado. 
Tem dias que me pego cantando um Deu pra ti baixo astral vou pra Porto Alegre tchau, ou um Um lugar pra viver sem chorar, é o meu Rio Grande do Sul céu sol sul terra e cor, onde tudo que se planta cresce e o que mais florece é o amor, ou mesmo o hino do meu tão querido time Inter, aí vejo e sinto que por mais que eu ame qualquer lugar no mundo, e por mais que me sinta em casa aqui no Rio ou em Barcelona [lugar que quero ir logo], ainda assim meu olhar vai ser sempre o de quem partiu, o de quem não está pisando no seu chão, o de quem precisa cantar músicas, ver futebol, ou falar num sotaque estranho, pra reafirmar pra sí mesmo e pra quem quiser ouvir, que seus primeiros passos foram dados noutro sítio, tão distante e saudoso... Por mais que me sinta em casa, sempre vai dar aquela vontade de sentir o cheirinho da minha terra, de ouvir a gente que fala como eu [se bem que eles já não acham mais], de pisar nos lugares que outrora viví bonitos momentos e de fato me sentir em casa, na casa que tá lá na certidão e no RG, na casa que tá no coração, na infância, no jeito de falar, na bravura de defender, no jeito de se portar, na cultura, nas tradições, em muitos gostos esquisitos [ao olhar dos outros]. Não adianta, serei sempre estrangeira, sempre em busca do meu porto, que não é seguro, mas é alegre, pelo menos pra mim!!!!

ps: saudade que será matada em breve, gracias...

Sunday, April 05, 2009

( e espaço entre o parentêses e o colchete ]

[flor amarela]

(compra pra mim uma flor?)

[flor de que cor?]

(qualquer uma, desde que seja flor)

[mas qualquer uma pode ser todas?]

(nunca parei pra pensar)

[outro dia fiquei vendo você dormir]

(e?...)

[fiquei sem coragem]

(sentiu medo?)

[não, só fiquei sem coragem]

(o jeito que você me fala as coisas, parece poesia)

[isso é bom né?!]

(depende)

[do quê?]

(do quanto da poesia é verdade)

[mas é poesia!]

(ainda assim, há que ser verdadeira)

[e a minha não é?]

(não sei, se eu soubesse não teria levantado a questão)

[hum]

(mas enquanto eu durmo, como pareço?)

[não prestei muita atenção]

(mas não estava fazendo só isso?)

[é mas, eu fiquei olhando pros seus pés]

(e?...)

[nada, só perdi a coragem]

(meus pés são desencorajadores?)

[de certa maneira são]

(porque?)

[por causa da curva]

(que curva?)

[do seu pé]

(ah...)

[ela se parece com um lírio]

(e tira a coragem?)

[tira, porque a curva do seu pé é muito bonita]

(e você fica sem coragem?)

[sem ar...]

(é a mesma coisa né?!)

[quase sempre sim...

subtrai pra somar

Hoje acordei diferente, com algo a menos, que significa algo a mais.

Thursday, April 02, 2009

conta gotas

No conta gotas pingavam coloridas formas de líquido. Ao soprar, contra a luz, formavam aquilo que era o contrário do arco íris. Supunha-se ali, um novo horizonte. Assim fazia-se a ilusão. Olhos vívidos, cheios de dor e fúria, e medo e esperança. Esperavam. Espreitavam. Na tentativa de um sonho. Deitavam-se nas cores. Deleitavam-se. A luz fazia-lhes sombra, de maneira que adormeceram. Na penumbra fantasiosa tiveram pesadelos, ao acordar deparam-se com o nada. O que teria sido verdade? Talvez nem eles o fossem...