Monday, February 02, 2009

delicadeza


por hora aqui tem sido um bom lugar


...e já que é de presente que se vive...









ps: preguiça de escrever? talvez,mas...nem sempre se precisa dizer algo claramente...

como eu acho que o ser humano é capaz de delicadezas como essa da foto, vai um texto sobre atitudes delicadas...

acho que anda faltando um pouco dessa pitada à vida...

"Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e
estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem
amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura
sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no
caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas;
quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso
sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se
deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os
lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita
pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos
presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou
aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda
verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto;
quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de
presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de
beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar
com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos;
quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem sabe
construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos
troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da
madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol
uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva
a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde
já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro;
quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga
adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e
andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da
armadilha terrestre."

 

Paulo mendes campos

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