Monday, January 26, 2009

o abc do filho que não existe

afinidade [segundo o dicionário]: 1 qualidade de afim 2 semelhança 3 conformidade 4 parentesco contraído pelo casamento

cumplicidadae [segundo o dicionário]: ato ou qualidade de cúmplice

cúmplice [segundo o dicionário]:1 pessoa que tomou parte, junto com outra, num delito ou crime 2 colaborador


Primeira lição a ser ensinada para meu filho [quando ele existir] é a de que o dicionário é uma ferramenta importante, mas que não serve pra apertar todos os parafusos, muito menos descobrir todos os significados. Segunda lição será que nem tudo na vida se aprende apenas descobrindo seu sgnificado literal ou radical [radical naquele sentido gramatical mesmo; o radical da palavra], algumas coisas na vida a gente só aprende vivendo, cosntruindo, descobrindo. Dor a gente só conhece sentindo. Quando corta o dedo com a pontinha do papel, um talhinho quase invisível, mas que dói mais que uma ferida aberta, porque é sutil, e quanto mais sutil, parece pegar mais fundo. Isso vai ser complicado de ensinar, mas ele vai acabar sabendo, mais cedo ou mais tarde. Aliás o tempo é outra coisa que por mais que se investigue o significado, a gente nunca entende perfeitamente. Às vezes ele corre, e a gente parece nem ter vivido direito. Às vezes ralenta, e a gente não aguenta mais viver. Muitas vezes traz as coisas tão rápido que a gente nem dá conta direito. Noutras vezes nos faz esperar mais que podemos. MAs aí entra um ensinamento, que sendo meu filho menino ou menina, um dia aprenderá: Clarice Lispector diz "viver ultrapassa todo entendimento".
Aí eu volto pra tal afinidade. É o que eu tenho com as idéias da Clarice, suas palavras, silêncio, expressões. Muitas vezes me falam mais fundo na alma, que muita gente que me sopra no ouvido, tentando atingir uma profundidade que não tem perna pra alcançar [ainda]. Ou não tem afinidade. Essa coisa que faz duas pessoas rirem de um mesmo fato, piada, cena, ou uma da outra - porque rir de sí mesmo reciprocamente, é sinal profundo de afinidade [a gente não se mostra ridículo pra qualquer um, até porque nosso ridículo é a parte mais especial e íntima que a gente carrega]. Essa coisa de escutar a mesma música, de olhar num horizonte parecido, de vestir o mesmo tom, de pensar em linhas paralelas. Semelhanças, como diria o dicionário [às vezes ele acerta]. Parentesco contraído pelo casamento? Aí nem sempre né? Na verdade acho que dá pra inverter: casamento é o parentesco contraído pela afinidade, sim porque a meu ver ela vem antes. E mesmo assim, meu filho vai ter que entender que afinidade não faz, de duas ou mais pessoas, necessarimante amigas [incluindo aí todos os níveis de relação, porque alguma amizade deve haver, mesmo nas mais cachorras]. Porque?! Ele vai perguntar, bom porque nem os gêmos são afins em tudo - e olha que conviveram no mesmo lugar por nove meses. Porque quem tem muita afinidade às vezes dança na música do tédio. Porque parecer demais pode enjoar [simmm o ser humano é bem complicado]. Porque não basta rir das mesmas coisas, não basta gostar de mesmas músicas, não basta olhar para um mesmo horizonte. E porque pessoas nem tão afins, também estabelecem relações lindas.
Mas porque?! [ele vai perguntar, lá pelos cinco anos vai sim].
Porque meu filho, tem aquela outra palavrinha alí: cumplicidade. Sem essa, não se dá um passo além do primeiro degrau. É preciso ser cúmplice até de sí mesmo, em muitos momentos da vida - aliás, sobre tudo de sí mesmo!!! Só sendo cúmplice é que se escolhe trilhar junto um caminho, no qual, por mais que existam semelhanças, tomarão lentes de aumento as diferenças. É através da cumplicidade que impera o respeito, que duas pessoas se aceitam mediante a seus defeitos, erros, diferenças...
Um olhar cúmplice dispensa palavras, e faz com que naquele momento nos sintamos compreendidos e aconchegados. Quando encontramos um cúmplice na vida [ e nada tem a ver com cometer delitos ou crimes] nos sentimos em casa, seja lá onde estivermos. Com um cúmplice você caminha mais, e vai mais longe. Existe alí alguém para dividir suas dúvidas, derrotas, tristezas, e sim suas alegrias. Um cúmplice cai e se ergue junto com você, nem que seja só em pensamento. Quem tem cumplicidade com alguém, tem um barco para navegar em busca das suas ilhas desconhecidas.
A cumplicidade [meu filho] não é um jogo de sorte e azar como a afinidade, que ou você tem ou não. Tem gente que é semelhante a gente, gente muito semelhante, gente pouco semelhante, gente muito diferente, e pro aí vai. A cumplicidade requer tempo, dedicação, atenção, zelo, amor, respeito. É preciso conhecer o outro e estar disposto a se unir a ele. É preciso querer trilhar caminhos parecidos no afeto - mesmo que os caminhos da vida se bifurquem. Cumplicidade leva tempo e é uma escolha - aliás,que nem todos tem paciência de fazer.
Mas a sorte é quando se alcança as duas coisas. Além de afins, somos cúmplices. Isso é raro, porque aí envolve a oportunidade e o fato de saber aproveitá-la. Então você encontra alguém que tem tudo a ver com você e escolhe ser parceiro na vida daquela pessoa. É difícil viu? Nem sempre é fácil aceitar conviver com os defeitos alheios, e expor os nossos - sim porque é preciso desnudar-se. Nem sempre é agradável regar e cativar esse tipo de relação. Em muitos momentos pode parecer mais bacana deixar de lado e voltar atenção para aquilo que no momento é mais divertido, mas também mais fugaz. E só se descobre isso quando não se está por cima.
Mas eu não vou querer te explicar nada disso [meu filho]. Na verdade eu só vou poder torcer que você [quando existir, se existir] tenha a sorte que eu tenho/tive, de esbarrar com gente que faça você não se sentir só. Se você encontrar um único laço que se atreva a dizer que é pra vida toda, eu já serei feliz. E se tiver um par de olhos que te entendam, assim, sem que você nem pisque, eu estarei tranquila. Porque eu te digo, só assim a gente consegue caminhar por essas estradas, respirar e tomar coragem pra fazer nossas escolhas diárias. Só sabendo que tem quem esteja com a gente, independente do dia, da hora, do ânimo, da conta, da vida, do tempo, da distância, do estado alcóolico [rsrsrsrs]...só assim a gente fica em paz, e se sente em casa, seja lá onde a gente estiver.
Mas [filho] deixa eu dizer, vão haver momentos em que você vai colocar a afinidade e, principalmente, a cumplicidade de quem você ama à prova, mas é nesse momento [filho], que a gente se mostra mais cúmplice, porque todo mundo tem o direito de errar, inclusive você, mas a diferença está [meu filho] na forma como as pessoas lidam com esse erro, e sua diferença vai estar [meu filho], na tolerância que você terá com quem ama -sim, porque tolerância faz parte dessa sopa de palvaras, e como.

E saiba que nós, mesmo tendo tanto em comum, também teremos de exercitar nossa cumplicidade, e não será menos difícil, quem sabe até mais... - nossa afinidade? bom aí vai depender se você vai puxar ou não a mim [hehe]!!!!

ps: só mais um segredinho, às vezes, por conviverem muito juntas, pessoas se tornam mais do que eram no início da história, aí você vai ver que nem sempre a afinsafinidade fica por conta da sorte - mas jamais fica por conta da imposição.

3 comments:

Fabiana Lazzari said...

Essa mãe é tudo de bom.
Sabe...a afinidade a gente tem já no momento que damos vida ao nosso filhote, porque puxando ou não á nós aquele serzinho que está ali já faz parte de nossos afins.É diferente de conhecer pessoas e ter afinidades ou não.
A cúmplicidade percebemos já no primeiro olharzinho daquele que busca o entendimento do que está acontecendo e só depende de nós querermos ou não aceitarmos. Mas acho que no momento em que aceitamos ter filhos isso é consequência. E a cada momento que passa vamos percebendo como lidar e se é aceito ou não pelo filho.
Já a tolerância, nossa esse é o mais forte e considero o mais difícil na convivência de pais e filhos: sim e aí entra à prova os outros dois.
Agora te digo e não me canso de te dizer: amo tudo que escreves e a tua potencialidade a cada escrita me surpreende mais!
AMOAMOAMOAMOAMOAMO
Bjocas com saudades

Maria Amélia said...

Ai, tah: Por Deus!!!rararararrara

Nao sou mae (AINDA) mas assim como a Fabi ja sei que tu ja e uma otima mae, mesamo ainda sem o baby!

Alias, somos.

Sim porque estamos prontas, apesar de ainda... nao termos esbarrado com aquela pessoa que queira entrar nesse barco com a gente...
atraves de aprendizados ... todas estas importantes palavras ...

mas principalmente a CUMPLICIDADE, a TOLERANCIA e tambem a CORAGEM.

Bom que ja sabemos o que e tudo isso, que experimentamos em nos, nas amizades verdadeiras, nos parentescos bem sucedidos, e em todas as relacoes que nos fazem crescer!

Quero que quando chegue meu filho eu (ou nos? quem?) saiba pasar tudo isso adiante pra ele, ou ela, quem sabe...

Que venha!

!!!pro alto e avante!!!

Meco said...

o que resta a dizer? só falta publicar mesmo... com folhas caprichadas e capa dakelas q a gente gosta... dentro tera alimento para o coração e alma...