Thursday, January 29, 2009

saramago

“Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar” Saramago

Monday, January 26, 2009

o abc do filho que não existe

afinidade [segundo o dicionário]: 1 qualidade de afim 2 semelhança 3 conformidade 4 parentesco contraído pelo casamento

cumplicidadae [segundo o dicionário]: ato ou qualidade de cúmplice

cúmplice [segundo o dicionário]:1 pessoa que tomou parte, junto com outra, num delito ou crime 2 colaborador


Primeira lição a ser ensinada para meu filho [quando ele existir] é a de que o dicionário é uma ferramenta importante, mas que não serve pra apertar todos os parafusos, muito menos descobrir todos os significados. Segunda lição será que nem tudo na vida se aprende apenas descobrindo seu sgnificado literal ou radical [radical naquele sentido gramatical mesmo; o radical da palavra], algumas coisas na vida a gente só aprende vivendo, cosntruindo, descobrindo. Dor a gente só conhece sentindo. Quando corta o dedo com a pontinha do papel, um talhinho quase invisível, mas que dói mais que uma ferida aberta, porque é sutil, e quanto mais sutil, parece pegar mais fundo. Isso vai ser complicado de ensinar, mas ele vai acabar sabendo, mais cedo ou mais tarde. Aliás o tempo é outra coisa que por mais que se investigue o significado, a gente nunca entende perfeitamente. Às vezes ele corre, e a gente parece nem ter vivido direito. Às vezes ralenta, e a gente não aguenta mais viver. Muitas vezes traz as coisas tão rápido que a gente nem dá conta direito. Noutras vezes nos faz esperar mais que podemos. MAs aí entra um ensinamento, que sendo meu filho menino ou menina, um dia aprenderá: Clarice Lispector diz "viver ultrapassa todo entendimento".
Aí eu volto pra tal afinidade. É o que eu tenho com as idéias da Clarice, suas palavras, silêncio, expressões. Muitas vezes me falam mais fundo na alma, que muita gente que me sopra no ouvido, tentando atingir uma profundidade que não tem perna pra alcançar [ainda]. Ou não tem afinidade. Essa coisa que faz duas pessoas rirem de um mesmo fato, piada, cena, ou uma da outra - porque rir de sí mesmo reciprocamente, é sinal profundo de afinidade [a gente não se mostra ridículo pra qualquer um, até porque nosso ridículo é a parte mais especial e íntima que a gente carrega]. Essa coisa de escutar a mesma música, de olhar num horizonte parecido, de vestir o mesmo tom, de pensar em linhas paralelas. Semelhanças, como diria o dicionário [às vezes ele acerta]. Parentesco contraído pelo casamento? Aí nem sempre né? Na verdade acho que dá pra inverter: casamento é o parentesco contraído pela afinidade, sim porque a meu ver ela vem antes. E mesmo assim, meu filho vai ter que entender que afinidade não faz, de duas ou mais pessoas, necessarimante amigas [incluindo aí todos os níveis de relação, porque alguma amizade deve haver, mesmo nas mais cachorras]. Porque?! Ele vai perguntar, bom porque nem os gêmos são afins em tudo - e olha que conviveram no mesmo lugar por nove meses. Porque quem tem muita afinidade às vezes dança na música do tédio. Porque parecer demais pode enjoar [simmm o ser humano é bem complicado]. Porque não basta rir das mesmas coisas, não basta gostar de mesmas músicas, não basta olhar para um mesmo horizonte. E porque pessoas nem tão afins, também estabelecem relações lindas.
Mas porque?! [ele vai perguntar, lá pelos cinco anos vai sim].
Porque meu filho, tem aquela outra palavrinha alí: cumplicidade. Sem essa, não se dá um passo além do primeiro degrau. É preciso ser cúmplice até de sí mesmo, em muitos momentos da vida - aliás, sobre tudo de sí mesmo!!! Só sendo cúmplice é que se escolhe trilhar junto um caminho, no qual, por mais que existam semelhanças, tomarão lentes de aumento as diferenças. É através da cumplicidade que impera o respeito, que duas pessoas se aceitam mediante a seus defeitos, erros, diferenças...
Um olhar cúmplice dispensa palavras, e faz com que naquele momento nos sintamos compreendidos e aconchegados. Quando encontramos um cúmplice na vida [ e nada tem a ver com cometer delitos ou crimes] nos sentimos em casa, seja lá onde estivermos. Com um cúmplice você caminha mais, e vai mais longe. Existe alí alguém para dividir suas dúvidas, derrotas, tristezas, e sim suas alegrias. Um cúmplice cai e se ergue junto com você, nem que seja só em pensamento. Quem tem cumplicidade com alguém, tem um barco para navegar em busca das suas ilhas desconhecidas.
A cumplicidade [meu filho] não é um jogo de sorte e azar como a afinidade, que ou você tem ou não. Tem gente que é semelhante a gente, gente muito semelhante, gente pouco semelhante, gente muito diferente, e pro aí vai. A cumplicidade requer tempo, dedicação, atenção, zelo, amor, respeito. É preciso conhecer o outro e estar disposto a se unir a ele. É preciso querer trilhar caminhos parecidos no afeto - mesmo que os caminhos da vida se bifurquem. Cumplicidade leva tempo e é uma escolha - aliás,que nem todos tem paciência de fazer.
Mas a sorte é quando se alcança as duas coisas. Além de afins, somos cúmplices. Isso é raro, porque aí envolve a oportunidade e o fato de saber aproveitá-la. Então você encontra alguém que tem tudo a ver com você e escolhe ser parceiro na vida daquela pessoa. É difícil viu? Nem sempre é fácil aceitar conviver com os defeitos alheios, e expor os nossos - sim porque é preciso desnudar-se. Nem sempre é agradável regar e cativar esse tipo de relação. Em muitos momentos pode parecer mais bacana deixar de lado e voltar atenção para aquilo que no momento é mais divertido, mas também mais fugaz. E só se descobre isso quando não se está por cima.
Mas eu não vou querer te explicar nada disso [meu filho]. Na verdade eu só vou poder torcer que você [quando existir, se existir] tenha a sorte que eu tenho/tive, de esbarrar com gente que faça você não se sentir só. Se você encontrar um único laço que se atreva a dizer que é pra vida toda, eu já serei feliz. E se tiver um par de olhos que te entendam, assim, sem que você nem pisque, eu estarei tranquila. Porque eu te digo, só assim a gente consegue caminhar por essas estradas, respirar e tomar coragem pra fazer nossas escolhas diárias. Só sabendo que tem quem esteja com a gente, independente do dia, da hora, do ânimo, da conta, da vida, do tempo, da distância, do estado alcóolico [rsrsrsrs]...só assim a gente fica em paz, e se sente em casa, seja lá onde a gente estiver.
Mas [filho] deixa eu dizer, vão haver momentos em que você vai colocar a afinidade e, principalmente, a cumplicidade de quem você ama à prova, mas é nesse momento [filho], que a gente se mostra mais cúmplice, porque todo mundo tem o direito de errar, inclusive você, mas a diferença está [meu filho] na forma como as pessoas lidam com esse erro, e sua diferença vai estar [meu filho], na tolerância que você terá com quem ama -sim, porque tolerância faz parte dessa sopa de palvaras, e como.

E saiba que nós, mesmo tendo tanto em comum, também teremos de exercitar nossa cumplicidade, e não será menos difícil, quem sabe até mais... - nossa afinidade? bom aí vai depender se você vai puxar ou não a mim [hehe]!!!!

ps: só mais um segredinho, às vezes, por conviverem muito juntas, pessoas se tornam mais do que eram no início da história, aí você vai ver que nem sempre a afinsafinidade fica por conta da sorte - mas jamais fica por conta da imposição.

Friday, January 23, 2009

Brecht e o olhar distante...

Tomar distância ajuda a enxergar melhor. Aprendi isso, teoricamente falando, na faculdade, quando ouvi falar do Senhor Brecht, mas intuitivamente já sabia por experimentação. Hoje, após ter experimentado isso em cena - e ver que de fato, mesmo que não vire a proposta estética, é bom tomar distância pra fazer melhor - vejo que na vida experimentamos isso quase que todos os dias.
Hoje mesmo me peguei com saudades imensas dos mimos da minha mãe, e dando um valor imenso, às mesmas coisas que há pouquíssimo tempo eu já andava saturada. Pensei que se lá eu continuasse, permaneceria não dando valor - eu continuaria não ENXERGANDO o quão delicado e sublime eram esses momentos. Hoje vejo com a sensibilidade da alma, e quando perto, dou o maior valor do mundo, por isso, agora, é mais difícil partir. Não que tenha sído fácil vir na primeira vez, mas era uma louca enfurecida, cheia de sonhos e desejos [ainda sou cheia deles fique claro], louca de tédio, louca da vida com a vida que levava, embora conseguisse reconhecer que era ótima - sim, eu sempre exigí demais de mim. Vir era quase como um ato de libertação. Mas e não foi mesmo? Se distanciar faz a gente enxergar, e se enxergando a gente ganha de presente a VERDADE de SER, então isso tudo é uma grande libertação. Me libertei. Embora doa. Embora goteje um pouco volta e meia. Mas no fim é libertador.

Estranhamente hoje eu descobrí, ou enxerguei, que a distância muitas vezes aproxima!

[na minha compulsão por escrever eu pensei em dois posts futuros: o primeiro sobre a velhice, baseado na minha avó que admiro muito, na minha tia avó mãe de criação e na minha tia avó que eu sempre chamei pelo nome, como se fosse amiga da mesma idade. outro post é sobre a afinidade. tão importante. tenho muita afinidade com alguns queridíssimos, mas descobrí que não tenho com alguns que me seria importante ter. talvez por isso, pensei agora em morar sozinha em breve.]


ps: to ficando meio surda de um ouvido. meu instinto maternal grita muito alto. e por aí segue a vida...

"Faltas são a prova da presença".

"Faltas são a prova da presença".

Li isso hoje em um blog muito interessante - http://parafrancisco.blogspot.com - e lembrei o porquê quero um dia tatuar "saudade" no pé, ou no pulso - enfim o lugar ainda não foi decidido. Saudade é a maior prova de que se ama, ou amou alguém um dia. A maior prova de que sua vida é repleta de pessoas, momentos, lugares que lhe fazem sentí-la. E eu acho que isso dignifica um muito a vida. E como a vida anda precisando ser digna!!!
Também acho que ver a saudade por esse âmbito denuncia uma escolha pelo lado bom da vida - não pela Coca Cola rsrsrsrs -, denuncia uma opção pelo otimismo, e eu sempre achei e acho que é o melhor caminho. Depois eu sei que sempre carregarei a saudade comigo, então seria uma tatuagem atemporal, aliás, creio que com o passar dos anos a saudade só se faz aumentar. Porque a vida muda, o tempo passa, perdemos pessoas, ganhamos outras, algumas se vão para outra dimensão, outras viram só doces lembranças, enfim...a saudade aumenta um ponto a cada segundo. Isso pra mim é fato!
Tem a parte da saudade que engasga, essa aí não é boa não, mas tudo na vida tem os dois lados, a gente escolhe qual vai regar. Eu rego aquela parte da saudade que faz rir baixinho no ônibus, quando escuto uma música, ou lembro de uma boa gargalhafa à tôa. Aquela saudade que sinto quando sento num café, cheia de gente querida ao lado, ou não, e penso que podia sim ter mais um certo alguém - ou alguéns - por ali, sempre tão imsprescindível. Saudade boa aquela quando eu abro um livro e encontro um bilhetinho, uma dedicatória, uma foto amada, aí eu lembro do dia, do rosto, do olhar. Saudade boa um recadinho no orkut, que lembra a distância, mas de alguma forma aproxima - nem sempre da forma que a gente tá querendo. Saudade boa quando a gente praticamente materializa a pessoa, e sente o cheiro, ouve a voz, pega na mão. Saudade boa até quando a gente lembra da briga, quase sente a raiva de novo, mas pensa como tudo se resolveu da maneira mais bizarra possível. Saudade boa de pensar que se poderia ter bombons sendo jogados na cama, quantas vezes eu fui acordada assim, não sou mais agora por escolha MINHA, e isso tem um propósito - e que bênção ter sido acordada assim e agora lembrar. Saudade bem boa essa que invade o quarto imaginando o ser magrelo dançando uma dança meio afeminada - rsrsrsrs - e mostrando a linguinha. Saudade do bom humor, mas o segredo maior da saudade é que ela DIGNIFICA até os defeitos. Sim de quem eu amo sinto saudade até do mau humor!!!


ps: eu não sei - como me foi perguntado - o que você pode fazer com a saudade e a dor - a mensagem veio pela metade amore, sorry - não sei mesmo. se ela estiver doendo muito dá um jeito de não doer mais, eu só não sei que jeito, prometo pensar. não é fácil caminhar sentindo saudade, mas a gente tem que ir em frente, e pensa que é sinal de que as coisas um dia foram lindas...tá eu não ajudei nada, e isso é um lado da saudade que me irrita: NÃO ESTAR POR PERTO QUANDO A ÚNICA AJUDA A SE OFERECER É UM SIMPLES, MAS SINGULAR ABRAÇO!!!



Wednesday, January 21, 2009

hora de fechar a porta

A chuva batia forte na janela. Eram duas da manhã e o sono a abandonara. Pensou que nunca tinha, de fato, vivido um amor. Já tinha amado muito, e sido muito amada. Mas as duas ações ao mesmo tempo nunca. Havia um padrão. Ela nunca gostava muito, depois acabava se apaixonando pelo apaixonado ao lado, aí ele batia asas que nem passarinho e nunca mais se ouvia falar. Não foram uma, nem duas vezes...foram todas as vezes. Cantava palavras soltas pela noite inquieta, quase como uma prece, e pedia por um sinal. Havia lá alguma resposta. Mas nem queria se iludir. O coração havia, de verdade agora, cansado. Cansado muito. Talvez fosse tempo de deixar alguém entrar, mesmo que não fosse quem ela queria. Quem sabe assim, por alguém que ela jamais se interessaria, conseguisse viver uma ilusão de amor. Mas saberia ainda, que se trataria de uma ilusão. Talvez melhor ficar consigo mesma, pensara. Escrevendo, sonhando, trabalhando, vivendo. Parecia sempre tão pouco. Era o seu lado pacional pensando. Mas o que fazer com o que vivia dentro dela, e insistia em não morrer? O que fazer agora?

Por favor volte mais tarde, entraremos em um longo período de manutenção, e de fato, não sabemos quando voltaremos. Não faça barulho. Não bata na porta. Não interfone. Não deixe bilhete, carta ou recado. Não grite. Não faça serenatas. Não tente trapacear. E por favor, não se apaixone!!!

A direção, solenemente, agradece.

E você (...) siga o caminho de volta!!!!

Tuesday, January 20, 2009

sepultando o passado

talvez agora, e só agora, ela pudesse, de fato, andar sem as antigas correntes. agora não estaria mais presa a nada. se já não se prendia mais pelo sentimento, agora deveria se libertar também da posse. e andava rumo à leveza absoluta, sabia que não havia melhor momento para aquilo acontecer. dizia adeus a um pedaço da sua história, e não chorava. zero de lágrimas, inclusive as invisíveis - da alma. talvez um pouco de sentimentos sutis, desses que nem valem à pena. seus pensamentos já se dirigiam, há algum tempo, a outros olhos, e era desses que sentia saudade. talvez agora, virada uma página já amarelada, enfim pudesse ler o novo capítulo. sim, agora sentia-se livre para viver o que sentia. agora parecia ser o tempo de um presente. com fita amarela. e ela sonhava. sonhava e sentia fome. saudade. vontade de estar perto cada segundo. do dia. da noite. de todo o tempo. talvez devesse tomar alguma atitude agora mesmo, mas ao mesmo tempo sentia que era preciso respeitar o tempo. o seu tempo. o tempo que batia no coração ao lado. andariam pela mesma ponte. agora sem passado atormentando as mãos que iriam se unir em breve. por hora se contentava com a saudade, a saudade que tanto acarinhava seu coração.

achava que gostava.
descobriu que gostava muito.
mesmo que não virasse real...

Sunday, January 18, 2009

novo simples

"É tão agradável que gosto como se eu fosse uma amiga nova e simples, dessas que a gente tem vontade de viajar pra praia e falar besteira enquanto cutuca cascões no pé." [tati bernardi]

às vezes o novo é mais simples e mais agradável. mas eu discordo de que sempre algo precisa ser novo para se tornar simples e mesmo querido. aliás, ultimamente tenho encontrado toda simplicidade do mundo nas coisas mais "velhas". hábitos antigos. amigos de anos. mãe. irmão de sempre. e por aí vai. e essa simplicidade é a mais interessante, porque é verdadeira. a simplicidade do que é novo se faz pela leveza da novidade, que em si só não traz nenhum peso a mais. quando algo é novo é leve, é inspirador, é puro glamour. um novo amigo não cobra, não julga, não pede...mas ele não faz nada disso também porque ele não conhece, não viveu junto, não saca os defeitos, não sabe dos podres, dos desejos, dos sonhos, das conquistas, das histórias. uma relação nova sempre começa simples. em qualquer âmbito na vida. até a relação com as "coisas". difícil é conquistar toda a leveza e surpresa, e por que não agradabilidade em uma antiga relação. difícil mas muito mais gratificante, porque quando isso acontece dá pra ter certeza de que vale à pena - ainda - ser humano. quando tudo é tão...quando tudo É e pronto a coisa fica fácil, fica divertida, fica verdadeira. dái se faz de tudo, se abre tudo, se conta tudo, se leva pra todo canto, porque não traz peso, porque não desgasta, porque acrescenta muito, mesmo quando o mar tá revolto. ultimamente, é isso que tenho desejado e atraído pra minha vida...a simplicidade daquilo que não requer muita explicação, porque simplesmente É!!!!

Friday, January 16, 2009

OU ISTO OU AQUILO...

Aos viajantes e corações aventureiros deve ser ensinado um primeiro passo. Talvez o mais importante de todos os outros que se seguirão. É preciso fazer da saudade uma ponte, que levará aquele que se arrisca em direção aos sonhos realizados. E essa ponte servirá de ligação eterna entre o lado dos que ficam, e o lado de lá, das novidades, dos novos amores, das terras férteis. Essa ponte se bem vista, estreitará todas as distâncias, e trará pra perto quem se quer sempre ao lado. Na vida não se pode ter tudo. Como diria Cecília "é isso ou aquilo". Mas salve, salve, que ainda não precisamos ter cotas para o amor, e esse sim, mesmo de longe, e através do tempo - que por sinal vôa - permanecerá eterno dentro dos corações de quem o cultiva.

[e não esqueça de dizer ao viajante e ao aventureiro que eles jamais terão um só segundo sem pisar nessa ponte, porque uma vez atravessada para o lado de lá, cada passo desses sujeitos será regido pela saudade. seus passos ora levam-nos pra um lado, ora para outro, e dessa forma, seja onde se encontrem o viajante e o aventureiro jamais terão um coração inocente da saudade...]




OU ISTO OU AQUILO

ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares!

é uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

ou guardo dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

CECÍLIA MEIRELES.

Tuesday, January 13, 2009

arte.atriz

Que eu sou profundamente apaixonada pelo que eu faço não restam dúvidas, mas será que esse desejo de construir um caminho sólido e reconhecido como atriz, não atendem meramente à minha vaidade e ego - digo pura e somente?! E meus anseios artísticos onde ficam? Terei tempo de praticá-los? E aí não digo a respeito de certa estética ou linguagem, mas sim de algo que retorna e multiplica. Cada vez mais sinto necessidade de colocar minha arte em relação verdadeira ao outro. Não um espectador pura e simplesmente - embora isso não seja simples nem banal -, mas sim em relação a algo maior, que tenha consequências mais "reais".
Sempre tive grande flerte com as pessoas que fazem algo maior pelo mundo, pelo mundo em que vivem ao menos. Esse tipo de atividade sempre mexeu fundo com a minha alma. Sempre me imaginei fazendo da minha arte um meio de elevar pessoas, tirá-las de suas visões, muitas vezes reduzidas da vida. Sempre imaginei algo maior. Agora me pergunto se ando por esse caminho?! 
Sim, sendo atriz posso alcançar isso tudo de alguma forma, mas sempre me parece muito pouco. Muito mesmo. Não é questão de desistir ou não, mas de somar. Faz tempo  que venho pensando que só ser atriz talvez não me satisfaça a vida inteira. Sempre fui resistente a dar aulas, mas o fato que mais me irritava era ganhar a vida assim. Prefiro garantir meu sustento trabalhando minha arte de outra forma, mesmo que seja imperando minha vaidade e meu ego, no caso. Mas as necessidades que tenho para com minha arte, e aí falo aquela que grita em mim desde que me conheço por gente, devem culminar noutro tipo de ação.
Sinto cada vez mais que anda na hora de devolver pro mundo o que o universo me tem oferecido, ou eu o tenho feito me oferecer. Não sei a forma ainda. Não, não, não vai ser me enfiando em uma escola porque eu sou muito anárquica para isso. E porque sou contra a idéia de impor teatro aos alunos. Dar aulas de teatro para alunos, visivelmente avessos à coisa, sempre me transtornou. Não me parece correto impor arte a ninguém, até porque ela já existe em todos, e a melhor forma de descobri-la não é impondo-a.
De alguma forma preciso encontrar o meu jeito de...não é fazer caridade, mas elevar a minha arte para além do meu bel prazer. Além da minha vaidade de ser uma grande atriz. Consigo separar muito bem essas coisas. Nem sempre como atriz me sinto artista. Mas sempre como artista me sinto ser humano. E preciso dessas duas versões. Preciso da atriz que quer experimentar todas as linguagens, e exercer bem um papel para seu público. Preciso da atriz que percorre o reconhecimento de seu caminho e busca os holofotes. Mas também preciso da artista que desperta o ser humano que vive aqui. Dessa que vê o mundo um pouco além e sente a necessidade de passar isso adiante. De transformar alguns contextos. De poder resgatar artistas escondidos por aí. 
Apresentar a arte como possibilidade de vida, e acordar aquilo que já existe em todos, embora alguns nem desconfiem. E são esses que não desconfiam que me interessam. Enfim...pensamentos soltos. Mas tenho pensado muito a respeito. Eu gosto de possibilitar meios para que as pessoas evoluam. E quero elevar minha arte a esse caminho. Também tenho meu lado atriz que clama atenções, e que vai num camino oposto ao meu lado espiritual tão saliente nesse momento. Essa coisa de mito, de platéia, de personagem, de vaidade, de ego, tão inerente ao ofício do ator, vai de encontro com meu momento de silêncio, de plenitude, de espirutualização. Por isso sinto que pra equilibrar a balança, o caminho é exercitar meu espírito e minha arte, aquela que grita na minha essência, em paralelo. Conquistar um lado mais inerente ao mundo, ao todo. Me sentir artista também, naquele sentido que não carece tanto da vaidade. Naquele sentido que tem paciência. Naquele sentido que sabe ser sua própria platéia por enquanto. Naquele sentido que se satisfaz muito mais ao possibilitar o crescimento de outrém, do que seu próprio - mas no entanto naquele sentido de saber que assim cresce junto e muito mais, talvez!!

Enfim....ou ando lendo muito, ou realmente entrei numa fase, vamos meditar povo do meu Brasil!!! ha ha ha...

Monday, January 12, 2009

espontâneamente

Acho que cheguei muito perto da flor da espontâneidade e respirei todo o pólen que havia nela. Talvez seja essa a explicação pra essa fase tão cheia de preguiças a certas coisas. Não me parece nada elegante deixar um amigo - que eu adoro muito - e que não vejo há muito tempo, o mais rápido possível, por simplesmente não conseguir entrar em sintonia com sua energia - péssima diga-se de passagem. Nem elegante, tão pouco bacana. Mas simplesmente não consegui ficar. Diante do mar então, não pude mentir. Fui sim, o mais querida possível e doei de mim o que cabia doar, mas quando ví que era provável que saísse dali muito sugada, resolvi, ou melhor, simplesmente antecipei minha partida, e fui!!! 
Ando assim. Sem conseguir escutar certas coisas, sem poder entrar em certas energias. Meu corpo inteiro sôa um alarme - desses que só eu e os cães podemos ouvir - e manda sinais de que devo mudar o rumo [da conversa, do caminho, da cena toda]. Ando com os sentidos mais ligados que nunca, e avisto de longe as ciladas e encrencas humanas. Não to podendo nem um pouco com gente que pra se sentir melhor, joga todo mundo na mesma barca que a sua - diga-se de passagem afundando. Não to podendo com energia baixa, esgotada, vampira. Não to conseguindo ficar ao lado da falsa energia boa, essa então bah!!!
Tem sido uma fase boa, mas bem estranha. Quando eu tento racionalizar já desisto, porque sei que é inútil e anti natural. Mas que é estranha é. Talvez porque seja nova. Nunca senti isso - não assim tão forte. É como o som equalizado, todos os botõens alinhados, nada em descompasso. 
É uma fase estranha porque não é otimista, daquele otimismo que espera, que cria expectativas. É uma fase otimista em sí, na sua essência. Sinto minhas portas e janelas abertas, mas não espero que alguém entre por elas, apenas sinto-as abertas. Ando quieta, mas não por não ter o que falar, ou com quem falar, apenas quieta porque o silêncio tem bastado tanto. Não tenho nem ouvido a mim mesma, apenas tenho ouvido o silêncio. 
Um quê de tranquilidade. Uma onda de leveza extrema. A sensibilidade aflorada. A intuição tomando as rédeas. A serenidade. 
Não sei quanto tempo essa fase vai durar. Mas não me importa. As mudanças que tem feito já valem pela vida inteira. E a vida inteira é muita coisa, embora digam que o tempo é curto. É estranho como a minha ansiedade simplesmente se dissipou. Eu não fico mais antecipando os fatos, nem colocando os pés pelas mãos. Parece que de alguma forma eu simplesmente sei que a hora certa acontece na hora certa. Mas não é um saber que se disfarçou pra não mostrar a esperança, nem um saber que passa só pela teoria. Eu simplesmente sei, de uma forma que não sei explicar.
Aliás, aprendi que o que a gente não consegue explicar, muitas vezes é o que a gente mais sabe na vida, porque sabe com todo o ser, e não só com uma parte dele!!!!

Sunday, January 11, 2009

a arte da preguiça alheia

Sim, uma mistura de aconchego com segurança. Um quê de poder ficar sem pedir. Daquilo que foi sem partir. Daquilo que É!!! Um riso frouxo dos olhos que já se conhecem em todos os ângulos. Uma quietude dos corações que já se afligiram tanto, e no entanto, estiveram sempre próximos. Uma alegria ao acompanhar o sucesso. Um doçura por ter por perto. Uma ansiedade num futuro, certamente unido de alguma forma. Nesse tempo meio "arisco". Nesse tempo em que eu to mais pra observar certas pessoas, do que pra tê-las por perto. Nesse momento que eu to bem desconfiada das atitudes alheias - mas sem neurose. Nesse momento de preguiça dessa superficialidade que parece reinar em volta. Nesse momento, é bom perceber que existem coisas que o tempo não leva. Sentimentos que se constróem na base da verdade, e que perduram, apesar de...
Parece que troquei as lentes e passei a ver coisas que antes não via. Estranho demais. Não sei ao certo como, nem quando, muito menos porquê. Só sei que passei a ver algumas coisas de maneira diferenciada. E pessoas também. Sei lá, podem me chamar de chata - pra muitos devo estar numa fase tri chata mesmo. Mas não arrasto mais meus calcanhares para ver e ouvir certas mesmices e frescurites de sempre. Eu já prevejo as histórias que vou ouvir, já antecipo o fim da cena, já imagino a confetada, a floreada, e a falseada, aí desisto. Mas, eu devo confessar, que parte dessa minha nova lente, leva muito da preguiça. Não aquela que faz dormir, mas aquela que faz acordar. Tipo assim: pra quê gente, pra quê eu vou fingir que gosto de quem finge que gosta de mim?!

ps: saiu!!!

Wednesday, January 07, 2009

proteja-me do que eu quero

Aí é que tá!!! Não buscou mais saber por onde andava. É como se o livro tivesse sido terminado antes da penúltima página - mas bem antes. Sentia tristeza? Não sabia. Talvez incompletude. Ultimamente pouco sabia o que dizer, aliás não só sobre isso, mas sobre qualquer assunto. Como se a grande onda de vento houvesse lhe calado a alma, como se não fosse mais necessário dizer palavras, explicar a vida, tentar rimar sentimentos. As únicas palavras que lhe saíam com facilidade eram as que ela não precisava ouvir novamente. Essas que ficam como um segredo da própria alma.
Talvez estivesse de luto. Havia morrido algo dentro de sí, que fazia certa falta. Por outro lado, um certo alívio. Um enorme alívio. Passado algum tempo, estaria sem nem lembrar que deixara o livro inacabado do lado de fora da mala. E assim seguiria seus passos firmes - ou não.
Se há algo implacável nessa vida é o tempo. Esse sim. Vence de alguma forma todas as batalhas. E sai ileso. Quem leva as escoriações somos nós. Nós? Mentira. Nunca fomos, nem seremos. Nada. É isso. Mas observavam-se mesmo assim. Quase um zelo por alguns segundos. E levavam olhres em linhas tênues. Buscavam a alma. Nem sempre encontravam.
Aquele vento queria lhe dizer algo. Algo bom. Alguma coisa a ver com uma paz que se estende e suspende. Talvez os tempos próximos fossem mais tranquilos. Mas ela seguiu pedindo a mesma coisa. Depois se perguntou, se toda a névoa de poeira em que estava mergulhado o coração, não seria sua própria culpa. "Proteja-me do que eu quero", não era essa a frase? Pois então, queria com tanta força, que abandonou seus membros restantes, e se jogou!!!

Friday, January 02, 2009

as horas de embriaguez

O zumbido dos mosquitos impediam o sono, que somado ao calor da madrugada pesada de ar úmido, perdia totalmente o espaço. O pensamento era um só, e era bom. Na verdade pensava em muitas coisas. Pensava no mundo que já havia construído, nos momentos que se aproximavam, nas certezas dos fatos próximos. Mas o pensamento principal era único, e era bom. Pensar era a única coisa que não lhe podiam impedir. Pensar e lembrar. E por um instante imaginou-se muito infeliz se perdesse sua memória. Só era o que era, porque assim o lembrava. Enfim!
Andava de mãos dadas - mãos bem aleatórias - por caminhos comuns, mas sabia que era tudo muito passageiro, tudo muito apenas para passar as horas. Não sentia nenhuma firmeza naquelas cenas, embora fossem bonitnhas, bacaninhas e tivessem trilha sonora. Pensou que deveria ter encontrado antes. Quem sabe noutro minuto tudo aquilo não teria mais sentido. Mas acreditava que tudo aocntecia no minuto que deveria acontecer, de certo com o tempo se daria conta. De toda forma era bonito o momento. Momento de descobertas meio nebulosas, sim porque quando achava que achava alguma coisa, via que não. E passava por tudo com tamanha tranquilidade que até assustava-se. O coração não se obrigava a dar mais peso, estava achando bom aquela onda flutuante, e sabia que nem poderia dar mais que isso. 
Não era vazio o que sentia quando voltava pra casa, era total preenchimento. Encontrava-se em suas lembranças totalmente absorta, e a hora de dormir lhe fazia sorrir. Quase podia materializar os olhos e a boca. Quase podia sentir. ALguns detalhes estavam se perdendo. Isso era sinal de tempo passado. Gostaria de correr, mas pra quê? Era tudo tão perfeito assim, mesmo que embebido dessa agonia reticente daquilo que não é dito nem desdito. No fim isso tem mais charme que agonia, e o alívio tinha nome e endereço. Sentia vontade de dançar, lembrava da curva entre pescoço e cabeça. Lembrava da malícia. Do sorriso irônico. Da mão na mão. Sentia saudade. Ao mesmo tempo que sabia que ia matá-la em breve. 
Certas coisas haviam mudado. A bebida já não descia com a mesma precisão. O encantamento já estava ocupado. Era difícil desfilar beijos gratuitos, embora o fizesse assim mesmo. Com o tempo se aprende que sempre é bom abrir uma janela, mesmo que seja em vão. O tempo aliás é amigo do que se leva dentro. Dentro do peito, do estômago, da garganta. Tudo que se leva dentro, fica mais sabido e claro quando se tem o tempo a favor. E nesse caso, as rugas e todos o resto valem à pena. 
Só sentia muita vontade de escrever. O momento era fértil, o hiato estava acabado. Escrevia tudo. Escrevia quase compulsivamente. E isso era bom. Até porque tinha que acabar certos projetos com as palavras ditas. Aí se deu conta o quão saudável era tudo o que lhe acontecia. Caso contrário teria perdido o enredo. Fazia muito tempo que não acreditava mais que poetas tinham que sofrer. Nem gostava das poesias da sua época de sofrimento. Todas muito carregadas. Tiveram seu valor, mas que perdeu-se com o tempo. 
Estava calma e tranquila. Saudosa de seu canto. Feliz no canto em que estava. Esse desconforto contente sempre é bom. Estava toda preenchida de bons sentimentos. Mais uma vez havia se jogado de cabeça, e como não agir assim?! Gostava de alçar vôos, mesmo que voltasse ao chão muitas vezes!!!!