Wednesday, December 31, 2008

a própria saliva

Pensou em acordar o cachorro e levá-lo para curtir o último dia do ano à beira do mar. Queria vê-lo correndo, livre. Esse sim, de fato era livre. Não tinha pensamentos intermitentes de culpa ou desejos reprimidos. Vê-lo correndo parecia-lhe bom, ao menos assim experimentava a liberdade. 
Acordou contemplativa. Pensou em tomar chá, mas desistiu. Não acordou o cão, pensou que isso seria tolir a liberdade que ela tanto invejava, mas era uma inveja que não destruía, portanto não acordou-o. 
Sentiu o frio na espinha. Como se houvesse a possibilidade de tudo mudar, naquele exato momento. Olhou mais uma vez o telefone que não tocava. Sentou-se. As horas marcavam sempre o mesmo compasso, e mais uma vez ela decidiu não comprar pilhas novas. Preferia ter a impressão que o tempo tinha parado, para que ela resolvesse suas pendências. 
Colocou o banquinho perto do parapeito. Sentiu a brisa. A vida que gritava dentro dela, era tão forte, que de alguma forma tentou berrar, mas só lhe saíram bolhas de cuspe. Sentiu-se uma criança, brincando com a própria saliva. A própria saliva. Sim, finalmente havia descoberto algo que era seu. Só seu. Mas ao mesmo tempo lembrou dos beijos que já havia compartilhado, e por um instante pensou que a própria saliva já não era mais tão sua. Havia alí particulas de amores perdidos, findados, eternizados, e por mais que cuspisse, a sua saliva jamais seria só sua.Não mais.
Ligou a música. Trocou várias vezes de faixa. Seu ipod onde andaria? Sabe-se lá. Talvez tivesse dado a alguém. O vazio daquele apartamento lhe fazia esquecer de tudo. Sentia ainda o cheiro na almofada. Resolveu beber um pouco de água. Lembrou da saliva que não era mais só sua, parou. Faria o que naquela noite? E o cão não acoradava. Via o sol despedindo-se em breve. Se chovesse ela poderia ir tomar um banho de chuva. Ouviu a música alta. Quase sentiu um desejo incontrolável. Sabia bem o que era.
Encontrou um bilhete no vaso ao lado da TV. A TV que ela nem via mais. Um bilhete de despedida. Um bilhete que ela não havia lido. Dois meses ali depositado. Pegando pó. E ela não tinha coragem. Como sempre. Tentava voar, mas por algum motivo, se detinha. Atava as próprias asas e sabia disso. Mas como não fazê-lo?!
Ficou tamborilando o bilhete entre os dedos. Assoprou o pó. Abriu uma parte. Podia ver a letrinha bem desenahada. As palavras escolhidas a dedo. Mas não consegiu decifrá-lo ainda. Esperava a hora certa. Mas o relógio não estava parado?!
O cão dormia. Talvez dormisse o dia inteiro. Certamente ele estaria cansado dela mesma. Dessa sua dona atada. Presa ao parapeito da janela. Enferma de seu prórpio medo. Ele que, de língua pra fora, parecia implorar-lhe um vôo. Um vôo térreo que fosse. Só para experimentar as asas. O par de asas imaculados. Atados. Quase dormentes pela falta de uso. 
Uma borboleta azul pousou no ombro esquerdo da boneca russa que tinha na prateleira. Porque não havia pousado em sí? Não conseguia imaginar que aquela boneca inspirasse mais vida a uma borboleta, que sua presença móvel e discreta, alí, completamente viva. Estava absorta. Estava completamente absorta.
Mais uma música. O cão moveu-se. Mas não acordou. Ou talvez estivesse acoradado, apenas contemplando seu espetáculo de inércia. Andava de um cômodo ao outro. Pensou em telefonar. Mas idiotice, se nem o bilhete tinha lido. Passaram-se dois meses. Onde andaria? O que teria feito? O que sentiria?
Pegou o bilhete. Abriu mais uma parte. Adormeceu. Acordou com um grupo de jovens gritando a beirada do prédio. Festejavam algo. Mas que dia era aquele? Ah sim. O último. O último dia daquele ano. Mais um ano em que havia perdido para o medo. MAis um ano de asas atadas. Mais um ano de borboletas não pousadas em seu ombro. Mais um ano.
O cão havia saído. Mas para onde teria ido? Nem tinha forças para procurá-lo. De certo fora festejar e mais tarde voltaria. O bilhete estava ali. Semi jogado ao chão. Olhou mais uma vez. Ainda restavam alguns minutos para o fim do ano, poderia terminá-lo com uma titude mais corajosa, enfim lendo o que tinha lhe sido escrito.

Será?

[continua]

1 comment:

Emerson Cardoso said...

Tão ficção... tão nós... tão diferente também... E no primeiro dia do ano... mesmo que virtualmente não poderia deixar de deixar aqui registrado mais uma vez o meu amor por vc... Felicidade pra nós... daquelas que só a gente sente... e saúde dessas que o povão também almeja! Temos que deixar o acaso que nos faz encontrar de lado e partir para um encontro marcado... né! Feliz Dias Novos! bjooooooo