Saturday, October 25, 2008

sábado de mau humor

tudo que eu precisava ler ou reler nesse sábado ensolarado desta cidade maravilhosa, que não está combinando muito com meu humor...

O ATOR
Por mais que as cuentras e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.
Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer de forma a atingí-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição e que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns de libertação.
Os atores tem esse dom. Eles tem o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existe defesa.
Os atores, eles, e não os diretores e autores, tem esse dom. Por isso o artista de teatro é o ator. O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor do teatro é bom na medida em que se escreve peças que dão margens a grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios.
É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor das personalidades de suas personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instinto e sensibilidade padronizados, como os hipócritas em seus códigos de ética pretendem.
Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ato no desespero de sua insegurança, quando ele como que viajando solitário sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano, reprimido, violentado.
Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os alcijões de alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor.
Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter não é o dinheiro, mas são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza.
Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

PLÍNIO MARCOS

* então a cabeça tá meio pensando demais, odeio!!! daqui a pouco vai chover, aí o tempo fica mais de acordo com meu humor. e...bom, os sacrifícios, e as renúncias...


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