Sunday, May 11, 2008

SoBrE aS mÃES...

Escrevi este texto há algum tempo atrás. Hoje em dia tenho certeza que quero ser mãe, brigo bem menos com a minha, e muitas culpas e receios desapareceram com a maturidade. Hoje em dia aceito bem que como filha, serei assim meio intolerante, meio birrenta, meio sem paciência em muitos momentos da vida, mas o que importa é estar sempre por perto, é o elo de amizade, o carinho, o respeito e o orgulho que se pode deixar para elas...acho que nisso eu tenho me esforçado. Um feliz dia das mães...


Ter Mãe.

Marina Monteiro.

Ter mãe é um misto de muitas coisas. A primeira delas que me vem a cabeça, talvez pelo momento passado ainda a pouco, é a de ouvir milhões de vezes as mesmas histórias como se fosse a primeira vez.

Ter mãe é porto seguro quase que metafísico. É ter como primeira imagem a dela, no momento da aflição. É ser criança volta e meia. É querer seu colo. Seu abraço. Seus conselhos. Mesmo que minutos depois estes conselhos sejam por nós mesmos decretados como não válidos.

Ter mãe é na hora da dor, chorar que nem neném, e apertar sua mão. Eu mordia os dedos da minha mãe quando tomava injeção, e ela, com os dedos roxos de tanto que eu machucava, nem sequer dizia um ai. Mãe confunde amor com dor. Dói por amor. Ama por doer.

Mãe sente dor quase que o tempo todo. Quando traz o filho ao mundo. Quando o filho fica doente. Quando não dorme a noite. Quando o filho não volta. Quando o filho vai embora. Enquanto espera na ausência a presença de seu bem mais precioso. Mãe dói de tanto que ama.

Mãe nem sempre entende o desejo do filho de voar. Porque seu colo é o melhor lugar do mundo. Mas talvez nós filhos só voemos, para em seguida do pouso, ter o colo tão esperado e certo. Mãe não entende quando a gente não se parece com ela. Quando não somos o que esperava. Quando não agimos como ela gostaria.

Mãe grita. Chora. Esperneia. Abraça. Beija. Ri. Mãe liga o tempo todo. E com o tempo arruma desculpas pra ligar. Quando no fim, o desejo continua o mesmo de sempre, saber se o filho está bem. Mãe põe dedo no nariz pra ver se o ar ta saindo. Mãe acorda cedo pra chamar pra escola. Mãe dá comida na boca.

Mãe é difícil. Eu penso nisso. Quero tanto ser mãe. Mas sei que depois de sê-la minha vida vai mudar. Vou entrar num caminho onde o prazer se confunde com a dor. Onde o coração vai viver entre euforias e aflições constantes. O amor maior do mundo. Certamente. Deve ser esse entre mãe e filho. Ou melhor, esse de mãe pra filho. Porque filho ama muito, mas não se compara ao quanto a mãe guarda no coração.

Quando eu for mãe, eu vou passar a entender o que é ter mãe. E passar a entender a minha mãe. E isso, isso me assusta mais. Porque aí eu vou entrar no mundo do sentimento entendido. E vou por tantas vezes me envergonhar de coisas e palavras ditas. E vou por tantas vezes pensar que mais valia ter guardado a verdade só pra mim. Que mais valia ter ganho o mundo sutilmente. Que poderia ter gostado de morar sozinha sem que ela soubesse. Que poderia ter falado em forma de companhia, mesmo quando o que eu queria e precisava era de silêncio puro e legítimo.

Assusta-me isso. Porque eu sei que como filha eu continuaria agindo assim pro resto da vida. E só passarei a pensar diferente, porque mãe serei. Assusta-me porque sei que meus filhos me farão o mesmo. E porque sei que eles não estarão errados. Porque são filhos. E filhos são assim.

Mãe é um misto de sofrimento, porque é um pouco de amor não correspondido. Porque por mais que eu ame minha mãe, nunca conseguirei amá-la na mesma intensidade que ela me ama. Porque mãe ama diferente e isso é fato.

Minha mãe não saiu de dentro de mim. Não dependeu de mim pra viver e vir ao mundo. Minha mãe não precisou de mim para ter vida. Mas eu sim. Dependi dela em todas estas coisas. Talvez por isso tanta vontade de voar e ganhar a própria vida. E talvez por isso ela tenha tanto medo de não fazer parte da nossa.

Ter alguém dentro de si, que um dia não estará mais, é talvez o maior sentimento de saudade que possa existir. E quando a gente sai pra fora e vira gente, acho que as mães têm medo de que a gente assim que aprenda a andar, de um tchau e vá se embora.

Por isso que acho que mãe é a arte da espera. Espera uma vida. Depois espera nove meses. Pra então esperar pra sempre. Espera que a gente cresça feliz e saudável, embora o desejo fosse que a gente voltasse pra dentro dela. Espera no sábado à noite, a madrugada trazer o filho são e salvo. Espera o resultado do exame. Espera a formatura. O casamento. Os nossos filhos.

Ser avó talvez seja uma forma de ser mãe mais aliviada. Porque o corpo não vira casa. Porque não espera o tempo todo. Porque vive amor no sentido normal.

É isso mesmo. Amor de mãe não é normal. É amor forte demais. É amor doido. Amor que só vai, sem voltar pra trás. Amor que enxerga, e mesmo assim prossegue amando. Amor daqueles que quase nunca entende, mas compreende, tolera, aceita.

Amor de mãe que teme a perda. Pra vida, pro mundo, pra morte. Ah, se elas soubessem. Que por trás destes corações ousados de filhos. Destas palavras de aventura. Desses gritos de independência. Existem sempre aqueles bebês chorões. Que só se fazem calar ao abraço quente e materno. Abraço de Mãe!

Elas não sabem que é nelas que a gente pensa quando sente saudade. Que é pra elas nosso primeiro pensamento do dia. Que é delas nossos votos de saúde. Que por elas a gente se coloca a rezar desarvoradamente, quando assim se faz necessário.

Elas não sabem que elas arrancam nossos choros mais profundos. Sejam de raiva, de dor, de saudade, de tristeza, de alegria, de esperança. Elas não sabem que nossa independência só se faz por que delas dependemos um dia. Elas não sabem que por elas morreríamos. Elas não sabem que muitas vezes negamos abraços e beijos, que muitas vezes lhes dedicamos caras emburradas e maus tratos, por simples medo de nos apaixonarmos ainda mais. De sermos independentes, ainda mais dependentes deste amor.

Filho tem medo de amar a mãe demais, porque um dia ela vai embora, e isso dói. A gente chega perto desse amor profundo e sai correndo por medo. Mas mãe não tem escolha. Assim que a gente entra nela, pra depois sair, ela já ama a gente desse jeito que dói e traz felicidade. Ela cede espaço pra gente e ali mesmo se apaixona, sem nem saber quem a gente é. Porque pra mãe, a única identidade que interessa, é essa de filho. A gente é filho e pronto. Ela é mãe e fim.

E isso ainda vai longe.

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