Saturday, May 17, 2008

a casa dele onde fica?

Ele deitado no chão.
Preferiu o cimento duro à grama.
A grama deveria estar úmida.
Mas não via nenhuma parte do corpo dele.
Todo coberto, enrolado, escondido.
Do frio, do olhar, do outro, do dia...
Dormia?
Sorria?
Bebia?
Deitado no chão.
O ônibus passava, todos passavam.
Ele ficava.
Nenhuma parte do corpo descoberta.
Imaginei com barba, homem por consequência, estatura mediana, unhas sujas.
Imagem clichê.
Vai que ele usava terno, gravata, perfume caro, e estava ali por opção.
Mas mesmo assim, ainda parecia sozinho.
Só.

Sunday, May 11, 2008

SoBrE aS mÃES...

Escrevi este texto há algum tempo atrás. Hoje em dia tenho certeza que quero ser mãe, brigo bem menos com a minha, e muitas culpas e receios desapareceram com a maturidade. Hoje em dia aceito bem que como filha, serei assim meio intolerante, meio birrenta, meio sem paciência em muitos momentos da vida, mas o que importa é estar sempre por perto, é o elo de amizade, o carinho, o respeito e o orgulho que se pode deixar para elas...acho que nisso eu tenho me esforçado. Um feliz dia das mães...


Ter Mãe.

Marina Monteiro.

Ter mãe é um misto de muitas coisas. A primeira delas que me vem a cabeça, talvez pelo momento passado ainda a pouco, é a de ouvir milhões de vezes as mesmas histórias como se fosse a primeira vez.

Ter mãe é porto seguro quase que metafísico. É ter como primeira imagem a dela, no momento da aflição. É ser criança volta e meia. É querer seu colo. Seu abraço. Seus conselhos. Mesmo que minutos depois estes conselhos sejam por nós mesmos decretados como não válidos.

Ter mãe é na hora da dor, chorar que nem neném, e apertar sua mão. Eu mordia os dedos da minha mãe quando tomava injeção, e ela, com os dedos roxos de tanto que eu machucava, nem sequer dizia um ai. Mãe confunde amor com dor. Dói por amor. Ama por doer.

Mãe sente dor quase que o tempo todo. Quando traz o filho ao mundo. Quando o filho fica doente. Quando não dorme a noite. Quando o filho não volta. Quando o filho vai embora. Enquanto espera na ausência a presença de seu bem mais precioso. Mãe dói de tanto que ama.

Mãe nem sempre entende o desejo do filho de voar. Porque seu colo é o melhor lugar do mundo. Mas talvez nós filhos só voemos, para em seguida do pouso, ter o colo tão esperado e certo. Mãe não entende quando a gente não se parece com ela. Quando não somos o que esperava. Quando não agimos como ela gostaria.

Mãe grita. Chora. Esperneia. Abraça. Beija. Ri. Mãe liga o tempo todo. E com o tempo arruma desculpas pra ligar. Quando no fim, o desejo continua o mesmo de sempre, saber se o filho está bem. Mãe põe dedo no nariz pra ver se o ar ta saindo. Mãe acorda cedo pra chamar pra escola. Mãe dá comida na boca.

Mãe é difícil. Eu penso nisso. Quero tanto ser mãe. Mas sei que depois de sê-la minha vida vai mudar. Vou entrar num caminho onde o prazer se confunde com a dor. Onde o coração vai viver entre euforias e aflições constantes. O amor maior do mundo. Certamente. Deve ser esse entre mãe e filho. Ou melhor, esse de mãe pra filho. Porque filho ama muito, mas não se compara ao quanto a mãe guarda no coração.

Quando eu for mãe, eu vou passar a entender o que é ter mãe. E passar a entender a minha mãe. E isso, isso me assusta mais. Porque aí eu vou entrar no mundo do sentimento entendido. E vou por tantas vezes me envergonhar de coisas e palavras ditas. E vou por tantas vezes pensar que mais valia ter guardado a verdade só pra mim. Que mais valia ter ganho o mundo sutilmente. Que poderia ter gostado de morar sozinha sem que ela soubesse. Que poderia ter falado em forma de companhia, mesmo quando o que eu queria e precisava era de silêncio puro e legítimo.

Assusta-me isso. Porque eu sei que como filha eu continuaria agindo assim pro resto da vida. E só passarei a pensar diferente, porque mãe serei. Assusta-me porque sei que meus filhos me farão o mesmo. E porque sei que eles não estarão errados. Porque são filhos. E filhos são assim.

Mãe é um misto de sofrimento, porque é um pouco de amor não correspondido. Porque por mais que eu ame minha mãe, nunca conseguirei amá-la na mesma intensidade que ela me ama. Porque mãe ama diferente e isso é fato.

Minha mãe não saiu de dentro de mim. Não dependeu de mim pra viver e vir ao mundo. Minha mãe não precisou de mim para ter vida. Mas eu sim. Dependi dela em todas estas coisas. Talvez por isso tanta vontade de voar e ganhar a própria vida. E talvez por isso ela tenha tanto medo de não fazer parte da nossa.

Ter alguém dentro de si, que um dia não estará mais, é talvez o maior sentimento de saudade que possa existir. E quando a gente sai pra fora e vira gente, acho que as mães têm medo de que a gente assim que aprenda a andar, de um tchau e vá se embora.

Por isso que acho que mãe é a arte da espera. Espera uma vida. Depois espera nove meses. Pra então esperar pra sempre. Espera que a gente cresça feliz e saudável, embora o desejo fosse que a gente voltasse pra dentro dela. Espera no sábado à noite, a madrugada trazer o filho são e salvo. Espera o resultado do exame. Espera a formatura. O casamento. Os nossos filhos.

Ser avó talvez seja uma forma de ser mãe mais aliviada. Porque o corpo não vira casa. Porque não espera o tempo todo. Porque vive amor no sentido normal.

É isso mesmo. Amor de mãe não é normal. É amor forte demais. É amor doido. Amor que só vai, sem voltar pra trás. Amor que enxerga, e mesmo assim prossegue amando. Amor daqueles que quase nunca entende, mas compreende, tolera, aceita.

Amor de mãe que teme a perda. Pra vida, pro mundo, pra morte. Ah, se elas soubessem. Que por trás destes corações ousados de filhos. Destas palavras de aventura. Desses gritos de independência. Existem sempre aqueles bebês chorões. Que só se fazem calar ao abraço quente e materno. Abraço de Mãe!

Elas não sabem que é nelas que a gente pensa quando sente saudade. Que é pra elas nosso primeiro pensamento do dia. Que é delas nossos votos de saúde. Que por elas a gente se coloca a rezar desarvoradamente, quando assim se faz necessário.

Elas não sabem que elas arrancam nossos choros mais profundos. Sejam de raiva, de dor, de saudade, de tristeza, de alegria, de esperança. Elas não sabem que nossa independência só se faz por que delas dependemos um dia. Elas não sabem que por elas morreríamos. Elas não sabem que muitas vezes negamos abraços e beijos, que muitas vezes lhes dedicamos caras emburradas e maus tratos, por simples medo de nos apaixonarmos ainda mais. De sermos independentes, ainda mais dependentes deste amor.

Filho tem medo de amar a mãe demais, porque um dia ela vai embora, e isso dói. A gente chega perto desse amor profundo e sai correndo por medo. Mas mãe não tem escolha. Assim que a gente entra nela, pra depois sair, ela já ama a gente desse jeito que dói e traz felicidade. Ela cede espaço pra gente e ali mesmo se apaixona, sem nem saber quem a gente é. Porque pra mãe, a única identidade que interessa, é essa de filho. A gente é filho e pronto. Ela é mãe e fim.

E isso ainda vai longe.

Saturday, May 10, 2008

"ADULTICE""

Essa vida de adulto...
Quando a gente acha que já entrou firme nela, vem algo novo e lembra que é só o começo. Na pré-adolescência - da minha época - ter documentos na carteira, e um cartão - mesmo que fosse o da poupança com 10 pila na conta - já dava uma ilusão de "adultice" que enchia a alma de orgulho.
Bom, depois vem a faculdade e todas as responsabilidades, o primeiro trabalho, o primeiro salário, as festas, aprender a dirigir, os amores, a organização do tempo, as viagens, e toda aquela tralheira que a universidade revela, pronto somos adultos então!!!
A gente já paga conta, a gente já presta atenção nos preços, a gente já faz todas as escolhas, mas a gente ainda grita pra mãe quando a coisa aperta, e muitos da gente ainda moram com ela, ou voltaram a morar. Adultos?! Ai meu senhor...
To começando a descobrir que vem muito mais pela frente. O que mais me apavora é o tal do imposto de renda, mas esse ainda não faz parte do meu pacote porque não tenho riquezas o suficiente para declarar. Mas tem o tal do aluguel, as tais das contas, tarifas, o telefone maldiiiito, a internet - sustentar vícios custa caro - a decisão entre comprar uma super bota fina, ou aquela máquina fotográfica que se sonha há anos, ou equipar seu novo apartamento com coisas que antes você nem botava a mão, tipo a máquina de lavar, o fogão de quatro bocas e a geladeira super moderninha.
Daí as nossas escolhas de adulto nos levam a lidar com as consequências. E a gente muda pra longe, e encaixota tudo, e decide o que vai e o que fica - tudo tão importante. E lida com a saudade, com a vida nova, com a casa só sua, com a busca pelo emprego e pela carreira. As amizades. Os amores...
O manhêeeeeeee, traz minha "dedeira"!!!

Brincadeira, na real, faz bem essa coisa de virar adulto, sem necessariamente virar um chato. É muito bom perceber que as linhas são tênues, e que a gente não vira outra pessoa. Melhor ainda perceber que se está virando o que se queria virar. Que os planos estão se cumprindo, que os caminhos estão sendo trilhados, que as dificuldades são ultrapassadas, e que a gente vai se tornando até melhor do que imaginava, mais capaz, mais sereno, mantendo a alegria de criança, com o otimismo guerreiro de adulto. Eu to gostando dessa brincadeira. Fazer a própria história dá prazer, e construir uma vida cheia de estórias garante o que contar pros netos depois!!!!

Sunday, May 04, 2008

salve o teatro!!!!


"Contra a ignorância, o terror, a falta de educação, a propaganda de promessas, o conforto moral, a ordem acima do progresso, a fome, a falta de dentes, a falta de amores, o obscurantismo... nós fazemos teatro.Fazemos teatro pra dar sentido às potencialidades, pra ocupar o tempo, pra desatolar o coração, pra provocar instintos, pra fertilizar razões, por uns trocados, por uma boa bisca, porque é fundamental e porque é inútil. Pra subir na vida, pra cair de quatro, pra se enganar e se conhecer... contra a experiência insatisfatória; contra a natureza, se for o caso, nós fazemos teatro.

Fazemos teatro pra não nos tornarmos ainda pior do que somos. Pra julgar publicamente os grandes massacres do espírito. Pra viabilizar a esperança humana, essa serpente...Nós fazemos teatro de manhã, de tarde e de noite. Nós somos uma convivência de emoções, 24 horas distribuindo máscaras e raízes.Nós fazemos teatro de tudo, o tempo todo, porque acreditamos que a vida pode ser tão expressiva quanto a obra e que devemos ter a chance de concebê-la e forni-la artisticamente. Porque estamos acordados. Porque sonhamos os nossos pesadelos.Nós fazemos teatro apesar daqueles que, por um motivo que só pode ser estúpido, estejam "contra" o teatro. Aliás, o que pode ser "contra" algo tão "a favor"? Nós fazemos teatro contra a mediocrização do pensamento; a desigualdade entre os iguais e a igualdade dos diferentes.

Nós fazemos teatro contra os privilégios dos assassinos de gravata, batina, jaqueta, toga, minissaia, vestido longo, farda, camiseta regata ou avental. Contra a uniformidade, nós fazemos teatro.Nós fazemos teatro contra o mau teatro que querem fazer da realidade.Nós fazemos teatro pra explicarmo-nos - ainda que mal - e ao mal de todos nós dar algum destino menos infeliz.

Nós fazemos teatro pra morrer de rir e pra morrer melhor. Pra entender o inestimável, se esfregar no infalível, resvalar na nobreza, experimentar as mais sórdidas baixezas, pra brincar de Deus...Nós fazemos teatro, comendo o pão que os Diabos amassam, os pratos feitos que as produções financiam e os jantares que as permutas permitem.Nós temos fome da fome do teatro. Porque onde houve e há teatro, houve e há civilização.Fazemos teatro sim, tem gente que não faz e está morrendo, essa é que é a verdade."

Fernando Bonassi

Friday, May 02, 2008

"Vale"


Hoje eu vi pela, sei lá qual vez, o "Vale". Sempre tão diferente a cada vez, e com uma essência que me toca tão fundo na alma. Boa pedida para uma noite de chuva, tpm e pensamentos. Péssima combinação, mas o "Vale" me salvou, mais uma vez.
A primeira vez que vi esse filme, foi em um ano novo que decidi passar em casa, bebendo e vendo filmes. Lembro que aluguei um que prometia boas risadas para o momento da virada, e o Valentin, que me pareceu atrativo, para ver logo em seguida. E assim iniciei um dos anos mais loucos da minha vida, e se eu soubesse o que esse filme me renderia futuramente...
Hoje me chamou atenção principalmente, a fala em que diz: "Há gente que tem tudo e não desfruta". E é verdade, principalmente das coisas dadas aos sentimentos...
Gosto quando ele olha bem vesgo pra tela, e continua lindo assim mesmo. Lembrei de quem gosta das "imperfeições" e descobri que eu também gosto delas. Sua avuela tão querida...
Pensei um pouco mais sobre as relações humanas hoje, e deu vontade de colocar uma cópia desse filme am cada casa, porque ele dá uma sensação de solidão e ao mesmo tempo aconchego, uma coisa de delicadeza forte, de medo e coragem, umas misturas que tornam qualquer um humano, e que têm fazido falta nesse mundo de rótulos e prateleiras, embora fala-se muito em pós modernidade. Acho que a gente era mais pós moderno antes, hoje em dia, diz-se muito da mistura, da falta de cercas, mas os rótulos estão aí pra sanar a necessidade de codificar e dar lugar certo a tudo, senão me parece que o ser humano pira.
Eu ainda prefiro o que não tem lugar nem nome certo, aliás cada vez mais.Me parecem coisas mais puras e mais sinceras, e por incrível que pareça, mais duradouras - não que o tempo importe.
O astronauta que decide virar escritor. Ainda bem, porque ele vai atingir planetas mais estranhos com as palavras do que com o foguete. E o espanhol portenho que ressoa nos ouvidos como música. E as cores. E a necessidade de amar e ser amado. E a pureza de ser criança, mas dessas crianças grandes, que vêm o mundo de um prisma bem espetacular.
Então ele se deprime ao comprar pão. Querido. E onde está sua mamá? Ninguém sabe...
Triste não ter mãe, não ter casa. Mas ele tinha bons amigos, isso já era lá alguma coisa. E ele teve uma avó, mas esta parte da sua vida acabara para sempre. Ai eu morro a cada fala, a cada gesto, a cada cena...
Quisera ter um filho assim, mas que não precisasse de tantas pedras para se tornar sensível...

Thursday, May 01, 2008

a calçada.

Na outra parte da calçada, que poderia ser o outro lado, despediram-se, assim distantes mesmo. Há quem diga que despedidas devem ser realizadas ao longe...
Os olhos se cruzaram inúmeras vezes, sempre imprecisos. As mãos procuravam-se, frias de medo e indecisão. A rua que os dividia parecia como um abismo desses nos quais a queda é fatal. Portanto, pés bem firmes ao chão e bem longe da beirada do meio fio - meio fim.
Malas, malas, e muitas malas de um lado. Do outro uma mochila surrada. Alguem ali ia para um novo mundo, o outro ficaria no velho. Quem havia decidido ir embora? Não se sabe. Talvez os dois. Cada um a sua maneira.