Sunday, April 27, 2008

AnTÔnIO IV

Ah, Antônio está sentado em sua nova poltrona verde. Pensativo, vê da janela o mar revolto. Um lindo domingo de sol, uma linda tarde, um lindo estado de espírito. A música era aquela que lhe lembrava bons momentos. As fotos gastas ele havia substituído por novas, e as cartas antigas estavam na caixa, que ele raramente abria, só quando precisava lembrar.
Aliás, ele tinha aprendido a lembrar com carinho, lembrar boas lembranças, lembrar distante, lembrar sem ser sugado pelo passado. As lembranças não se alimentavam mais dele, e sim ele delas.
O telefone havia tocado. Era um amigo convidando-o para dar uma volta na orla. Antônio aceitou. Largou sua cadeira, suas lembranças, seu mar da janela, e foi ter com o camarada, dar risadas, beber uma cerveja, viver um pouco...e sempre levando-a em pensamento, porque isso era inevitável, mas agora mais leve!!!!

Friday, April 25, 2008

porto

Existia na areia daquela praia uma aspereza que massageava. Então fincou bem fundo os pés na areia. O mar ali era mais salgado, e causava-lhe uma espécie de lembrança. Lembrava que estava vivo. Naquele lugar, que parecia uma praia, mas não era, sentia o coração bater diferente. Os sons, mesmo quando diferentes, lhe eram familiares. As cores, o balanço das ondas, a mão que lhe segurava.

A mão não segurava firme, nem constante, mas ao mesmo tempo era a maior sensação de porto que já experimentara. Aquecia a alma, doía o peito de dor boa. Aquelas mãos soltas, que não pretendiam ficar, que não pretendiam nada, e acabavam sendo tudo. Todo.

Ele bebeu um pouco da água do mar. O sal desceu pela garganta rasgando, a boca queimou, o estômago pesou um pouco. Permeneceu com os pés fincados. Permaneceu a mão. Sensação de alívio.


Ele então trocou a praia pelo asfalto. A mão. O pé. Você. Ele amava, ele andava, ele seguia. Poeira no lugar do sal. Sensação de preenchimento. Sim, o coração fora preenchido, até a próxima parada - já que seu porto ele levava, onde quer que fosse, mesmo sem laço!!!!

Sunday, April 13, 2008

aposentadoria

Então a moça mais uma vez voltava pra casa sozinha, e cansada das mesmas desculpas, cansada da falta de sincronismo, cansada de sentir saudade, cansada de ver casais de mãos dadas, cansada do cenário dos falsos sorrisos, e dessa gente que se diz amiga, mas é toda muito estranha.
A moça andava pelas ruas daquela cidade que já não a atraia, e pensava no vento que batia na cara...
A moça sabia que estava num momento anterior a virada, e que era necessário aturar certas coisas. A moça sabia que o momento atual era todo trabalho, e ela estava mergulhando nisso. A moça trabalhava e buscava aconchego no lar, e nas pessoas queridas que nele habitavam. Mas a moça sabia que ali já não era mais tempo.
Novas caras, novos sorrisos, novos ares, novos mares, novas festas, músicas todas novas, era disso que ela precisava, e teria em breve. Por outro lado a maturidade vinha chegando sorrateiremanete, e isso ela percebia fácil, num gesto simples. O melhor de tudo era estar em cena assim, na plenitude de uma parte.
Vamos trabalhar então, e seguir mergulhada no trabalho, que essa dá mais prazer que o tal do amor. Mais prazer em nível parecido de trabalho. Mais alegrias pro coração. Será que dá pra se aposentar do amor? Ela pensava em querer. Cansada dos rostos, das saudades, do passado,das promessas, cansada das mancadas, das faltas, da ausência, cansada ela seguia, naquele único caminho que ela tinha certeza, e que mesmo sem enxergar o fim, ela sentia-se absolutamente segura - de olhos fechados, em frente ao abismo!!!!