Saturday, January 26, 2008

a beleza que ficou feia...

Ele olhou para mim com olhos marejados de solidão. Era tão lindo. Era o mais lindo. Irradiava beleza porque irradiava liberdade, tristeza bem vivida, medo que dava mão pra coragem. Agora ele não chegava a ser feio – a sina das pessoas bonitas é que nunca chegam a ser feias, nem quando precisam – mas não era mais o mesmo bonito. Agora ele tinha só aquela beleza de fora, aquela que vem da harmonia dos olhos bem colocados, da boca bem desenhada, aquela beleza técnica, padrão. Essa sozinha não ganha. Não ganha menina, não ganha lugar na novela, não ganha elogio, não ganha nada. Mas era assim que ele estava, vazio, belo e oco. Já não me fazia o coração parar, já não me inspirava amor e liberdade. Ele tinha o ar suspenso no peito, como quem parou num canto da vida, por medo, por planos, por desconhecimento...

Eu nada podia fazer. Talvez ele ficasse assim para sempre, talvez não. Senti pena, e isso fez eu ter vergonha. Queria sentir pena de qualquer um, menos dele, logo ele...mas senti. Ele estava acuado, ele mentia para si mesmo, ele impedia-se de sentir, ele não deixava o agora imperar, e tinha olhos voltados para o amanhã, que talvez nem chegasse. Meu amor que havia tornado-se pequeno, acabou naquele instante, no instante em que o vi jurar amor por mim, e mesmo assim não conseguir ir de mãos dadas pela esquina. Meu amor acabou porque ele acabou. Não consigo me lembrar quando, nem onde, mas um dia acordei e já não era mais ele. Uma pena. Grande pena. As pessoas se distanciam do que têm de melhor, porque se acham perdidas, incompletas, presas...e é justamente aí que se perdem, se incompletam, se prendem.

Daqui um tempo talvez nos encontremos em alguma esquina nova, de uma cidade nova, de um país novo, e espero de coração olhar os olhos que eu conheci e pelos quais me apaixonei. Espero ter-lhe como companheiro de sonhos e coragem novamente. Espero te ver bonito, daquela beleza que vem de um lugar desconhecido, e espero que estejas sorrindo com verdade.

Friday, January 25, 2008

a chegada...

Pequeno o quarto. Aconchegante. Uma luz ambiente. Precisaria comprar um varal. O colchão era meia boca. Em dias de chuva talvez chovesse dentro. O teto era meio mofado, mas com sorte o dinheiro daria para a pintura. Depois de tanto medo, estava diante de suas decisões. Cheio de ansiedade, sem saber se havia feito o certo. ...Só saberia depois...
Que sorte. Tinha um tapeta, que não sabia se estava esquecido, ou se era presente do antigo morador. Era todo vermelho vivo, com pontas de pedras cintilantes, chegava perto do brega, mas fugia dele, portanto, era cheio de realidade viva. O sofá era a única coisa nova que havia se dado o luxo de comprar...comprou um lindo sofá verde. Queria-o desde sempre.
Sentou-se. Leu a carta que trazia em mãos na longa viagem. Releu.

Sorte sua ter tabém de quem sentir saudades.

os caras certos!!!!

A minha alma rasga de tanto que transborda.

Os passageiros do meu barquinho indiscreto se afogam.

Fogem de medo dos tubarões. Estraçalham-se em meio ao furacão.

Eu já tentei acalmar a maré, e virar laguinho de patos, para as criancinhas brincarem, mas...

É, não deu certo. Virou marasmo. Virou chatice. Virou meleca. Só os patinhos, as crianças e os casais que não sabiam mais porque davam as mãos, andavam na minha margem. E a minha margem não era mais a mesma...

Tem uma frase do Brecht que diz: “o rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém chama de violentas as margens que o aprisionam”. Pois é...e acho que citando Brecht eu viro mais violenta, mais assustadora, mais turbilhão. E no único momento que eu tentei margear o meu curso, fodeu tudo de vez, e minha vida caiu numa moléstia horrorosa.

Depois disso eu nunca mais deixei ninguém me impor as tais margens, nunca mais deixei me chamarem de maluca – no sentido pejorativo – nunca mais permiti que qualquer carinha babaca, cheio de armaduras frágeis de defesa, me dissesse que a culpa era minha. Durante muito tempo eu acreditei que era impossível me amar. Já ouvi de um tudo. Já me chamaram de instável, enquanto o que eu faço é me deixar levar pelo que eu sinto no momento, e enquanto que “o ele” em questão sim era instável, instável nas verdades, nos sentimentos, nos sonhos, no caráter, na vida. Já me disseram que eu era bonita demais, inteligente demais, independente demais, atriz demais, bem resolvida demais, e isso era demais para “o ele” da vez. E eu por muito tempo escondi os livros, escondi a opinião. Durante muito tempo eu trabalhei meu cérebro pra pensar que eu era a criatura mais feia da face da terra. Tentei ceifar minha independência, tentei virar mocinha em dia de chuva com medo de derreter, tentei confundir meus instintos e criei dúvidas com relação ao meu futuro e à minha vocação. E tudo isso pra quê?!

Pra tentar tirar do olhar dos “eles” todo aquele medo e susto, toda aquela exclamação de “nossa como você é diferente”. Pra tentar fazer parte dos 97% das mulheres que os homens namoram, casam, dizem que amam, e vivem ao lado. Por um tempo eu cansei de fazer parte dos 3% de mulheres que deixam rastros de homens encantados, apaixonados, entorpecidos, confusos, desencaminhados, ou qualquer coisa do tipo...do tipo que faz eles fugirem, irem embora, partirem meu coração.

Nunca me satisfez o fato de ser inesquecível para um, de ter marcado a vida de outro, de ter sido o maior amor do terceiro, de ter fechado o coração do outro ali. Nunca me satisfez o fato de se despedirem de mim com um eu te amo, eu te gosto, você é perfeita...tão perfeita que eles não queriam estar ao lado. [isso engrandece meu lado dramático – como uma atriz que sou – rende história e faz minha vida parecer um filme, mas quero mesmo é a coisa mais normal do mundo...amor, oras, quem não quer].

Aí o tempo passa e você amadurece. E eu também. E descobri que eu me amo, assim do jeitinho que eu sou. Adoro ser inteligente, não abro mão de ser atriz, adoro minha independência, adoro seguir meus instintos e me levar pelos momentos, adoro a minha vida, adoro ter certeza do que eu quero, adoro ser mulher que comanda e também mulher que vira mocinha doce, adoro ser a louca doida louca... Enfim, eu sou legal!!!

Daí eu descobri que o meu maior defeito sempre foi o auto boicote. Meu coração se apaixona pelos homens errados, e quando os certos aparecem, ele sai correndo. Ou melhor, saía!!! Agora não mais, eu quero é quem ame, goste de mim com meus defeitos e qualidades, e que não coloque em mim as culpas dos seus medos, das suas neuras, dos seus defeitos...cansei de atrair “amor” que acaba precisando me consumir pra poder seguir em frente. Cara, ou consegue segurar o tranco, ou pede pra sair, só não se apaixone por mim se for pra fugir de medo, ou ficar em cima do muro, ou ser morno, ou enlouquecer de indecisão ou por clausura. Enlouqueça sim, mas enlouqueça pra fora, enlouqueça demais, exploda junto comigo. A vida é curta, e daqui a pouco isso vira auto ajuda.

O ministério da saúde adverte: Marina Monteiro não é recomendada para corações fracos!!!!

Monday, January 21, 2008

vi...

.sai.gente bonita.bebe.se diverte.rí muito.paquera.fofoca.bebe.volta pra casa as seis da manhã.domingo de preguiça.lê.come.tv.som.samba.dorme.dorme.dorme.acorda.cedo.trabalha.gente querida.ganha dinheiro.com o que gosta.planeja.sai.compra.liquidação.companhia de mãe.pesquisa.volta.telefone.internet.corre.sua.fica sarada.ducha.toalha.sensação.o coração está, depois de muito tempo, em período de férias.livre.leve.solto.existem meninos.deixa rolar.é boa essa vida de adulta bem resolvida e maluca do bem.

.vivam.

Sunday, January 20, 2008

samba na cozinha



Mamãe não quer . . . não faça
Papai diz não . . . não fale
Vovó ralhou . . . se cale
Vovô gritou . . . não ande
Placas de rua . . . não corra
Placas no verde . . . não pise
No luminoso : . . não fume
Olha o hospital . . . silêncio
Sinal vermelho . . não siga
Setas de mão . . . não vire
Vá sempre em frente nem pense
É Contramão
Olha cama de gato
Olha a garra dele
É cama de gato
Melhor se cuidar
No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha
Pra poder ganhar
Acalma a bola, rola a bola, trata a bola
Limpa a bola que é preciso faturar
E esse jogo tá um osso
É um angu que tem caroço
É preciso desembolar
E se por baixo não tá dando
É melhor tentar por cima
Oi com a cabeça dá
Você me diz que esse goleiro
é titular da seleção
Só vou saber mas é quando eu chutar
Matilda, Matilda
No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha

casa de atriz...

O texto decorado. Luz ambiente. Quadros na parede. Velas. Samba na vitrola. Samba que serve tanto pra rir como pra chorar. Adora samba. Rí. Olha no olho. Sente o perfume. Será? E o que se tem a perder além do tempo, que nesse caso faz pensar que tempo nunca se perde. A cortina é vermelha com laranja. Tapete verde. Fotografias espalhadas pelas paredes. Miçangas. Vinho tinto ali na banqueta. Pernas. A praia lá fora. Aqui dentro o aconchego. Amor? Provavelmente não, mas compensa. Casa de atriz. Cartaz pendurado. Balangandãs. Viola não tocada. O samba...

Friday, January 18, 2008

Antônio!!!

Antônio andava. Não sabia bem para onde, mas andava. Meio cambaleando pelo meio fim. Meio sufocado pelo nó que se fizera na garganta. A cabe;ca tilintava feito sino de igreja. Antônio que tinha perdido a fé. Andava. Sem saber onde ia dar o caminho. Sem saber se o fim seria longo ou não. Sem querer enxergar nada.

Desejava esfumaçar o horizonte, para ter desculpas de ficar parado, deitado, sentado, caído. O coração mal se segurava batendo. Estava apertado de torturosa saudade. Andava roto de tão abandonado. Por ele mesmo. Largara seu amor na estação do trem dos amores que não têm coragem. Ele não tinha coragem. Levava nos bolsos algum bilhete dela, que não tinha tido coragem para ler. Levava debaixo da blusa a foto que fazia os olhos refletirem de sol, e a tornava ainda mais bonita.

Ele deseja que ela se tornasse feia. Que ela engordasse. Que perdesse a força. A energia. Pra justificar o adeus que lhe dera. Pouco a pouco ele se consumia. Sabia que ia desejar morrer a vida toda. Ela ia longe agora. Não a reencontraria por surpresa, o que era bom. Mas ao mesmo tempo ruim. Ela em breve o lhe substituiria. Tanta beleza que seria capaz de assustar qualquer um. Mas eram em número bom os corajosos, e estes se encantariam e a ganhariam. Seu presente.

Antônio andava sem rumo. Com dor no peito. Com a incerteza do "se". Com o pecado dos que têm medo demais. Porque Deus havia lhe dado tamanho amor? E tão pouca coragem. Ela jamais entenderia. Deveria pensar que ele não lhe amava o suficiente. Como se fosse possível passar por ela e não amá-la. Como se fosse possível não querê-la para sempre. Como se fosse possível não ter medo.

Pensava no mal que ela carregava. Tanta perfeição. Tanta beleza. Tão sublime aquela mulher. Espantava. Afugentava seus amores. Sofria. Cresceu acreditando ser bem menos bela do que era. Cresceu sem altura do quanto era estonteante como mulher. E ser humano. Ela o amara tanto. Ele podia sentir. Isso piorava tudo. O que fazer?! Antônio só conseguira fugir. Fugir pra longe. E se perder no abismo dos que amam, mas não conseguem viver com isso. Caino na solidão de quem sentirá saudade para sempre. E de quem não terá amor maior no mundo!!!!!

entre aspas

Tchau, manga
(Tati Bernardi)

Juntei todas as minhas forças, e mais algumas que peguei emprestadas de amigos, gurus e santos, e disse adeus à única coisa que realmente me dava alegria nesta vida.

Claro que eu adoro meu apê, minha cachorra, meu trabalho, meus amigos, meus livros, viagens, músicas. Tenho uma vida ótima. Mas nenhuma dessas coisas se comparava ao prazer que eu tinha ao ouvir o barulhinho de uma mensagem dele chegando. Ou de quando o porteiro dizia seu nome e o meu coração disparava tanto que eu tinha medo de morrer antes de o elevador abrir a porta.

E olhar para ele, com o seu sorriso misturado de pior e melhor pessoa do mundo. E olhar o brilho dos seus olhos sem saber se vinha da alma ou da lente de contato. Enfim: olhar e me sentir errando tanto e acertando muito. Isso tudo fazia valer os últimos dez, quinze ou quarenta dias sem saber se ele estava ou não vivo. Era um jogo estúpido, mas o brindezinho que eu ganhava no final justificava os dias de luta perdida.

Mas aí resolvi começar o ano fora dessa palhaçada. Essa não parece a história de uma mulher esperta ou que merece uma história melhor. Quem pode cobrar da vida uma história de verdade se fica alimentando uma coisa desse tipo? Chega.

Sempre me gabei de nunca ter sido usuária de nenhuma droga e nem ao mesmo ter experimentado cigarro ou ter dado trabalho com bebedeiras. Sempre fui saudável além da conta. Até que me caiu a ficha de que ele era pior do que cocaína. Pior porque morenos bonitos e cheirosos são bem mais interessantes do que um pozinho branco que corrói o nariz. E melhor porque no dia seguinte o efeito “mulher maravilha acha que sabe voar” continuava. Não existia depressão, não existia abstinência. A esperança de que ele ligasse ou aparecesse ou ficasse para sempre fazia a vida ser boa não importasse a espera.

Mas mais uma vez eu pergunto: essa parece a história de uma mulher esperta e que merece receber da vida uma companhia bacana, madura, profunda e para a vida? Não. Óbvio que não.

Por isso, com muito custo, chacoalhei minhas mangas. E só eu sei o quanto doeu ver a melhor coisa do mundo indo embora. Doeu um, dois dias. No terceiro, a melhor coisa do mundo virou a melhorzinha. Que virou a décima melhor. Que não virou nada. Tanto medo de não conseguir parar de fumar e no fim a gente descobre que realidade esfumaçada só dá bafo e dor no peito.

o novo amigo

O cheiro se perdendo.

A imagem desfocando.

O som quase irreconhecível.

A memória ainda briga.

O coração não bate tanto.

As pernas não tremem.

Acho que a porta está novamente aberta, e que entre o novo estranho.








Seremos amigos um dia, quando meu abraço significar o mesmo que oi, que saudade!!! Quando te ver não me provocar nada além de alegria. Quando tua beleza for na medida do real, pra mim. Quando eu só quiser lhe beijar a testa. E quando o meu coração estiver preenchido de um novo cheiro, uma nova cor, um novo sorriso, um novo olhar...um certo olhar...não o seu. Aí sim, a porta da minha vida estará aberta pra você, e para sempre...seremos amigos então.........e provavelmente eu vou voltar a achar mil e um motivos pra te achar o melhor amigo do mundo!!! Mas agora não!!!!