Monday, November 26, 2007


O Javali.

Marina Monteiro.


Fome. Assunto pra campanha de governo. Assunto pra político corrupto engabelar pobre coitado. Palavra assustadoramente pobre. De pobre. Pra pobre. Pobre coitado.

Fome de comida. Arroz e feijão. Fome de bebida. Água pura e limpa. Fome de doce. Chocolate derretido. Fome de farofa. Fome de salgado. Fome de coxinha. Fome de bala. Fome de chiclete. Fome de beijo. Fome de abraço. Fome de carinho. Fome de dignidade. Fome de amigo. Fome de saudade. Fome de sossego. Fome de informação. Fome de sabedoria. Fome de palavra. Fome de sonhos.

Fome é assunto de pobre coitado?

Então, quem nisso crê, que suba lá no alto mais alto que encontrar e grite mais alto ainda pra todo o mundo ouvir – os pobres e os ricos coitados.

Fome é assunto universal. É palavra mundial. É problema sério. E está em todo lugar. Fome jaz no corpo do sincero e do mentiroso. Do leal e do traíra. Do honesto e do sacana. Do paulista e do gaúcho. Do artista e do maluco. Da galera e do eu sozinho. Jaz em quem quer que seja. Seja rico ou pobre. Ou qualquer outro que há.

Fome é bicho que cava toca dentro do estômago e dentro da alma. É bicho atemporal. Sem qualquer pré-conceito. Bicho que ataca ferozmente fazendo com que suas vítimas pairem por sobre uma nuvem de vácuo transbordante.

Fome altera os sentidos e causa manifestações. Faz o corpo empobrecer e a cabeça esfumaçar. Fome é coisa sem sentido de tão sentida que é.

Diga lá caro irmão, aquele que se tem por desprovido desta. Aquele que puder dizer que nunca sentiu o peso, por mais leve que fosse, dessa que vos lhe digo – fome. Pois bem, eu duvido. Tal pessoa deve ser transparente-inexistente de tão impossível de ser.

Outro dia em uma aula estávamos realizando a profética tarefa da escrita. E surgiu uma junção de palavras que me fez pensar em fome. Fome dessas que todo mundo tem. A de estômago raso e a de alma profunda. Fome de distinção.

Eis que vem a mim uma palavra que combinou com fome. Javali eis a questão. Javali é palavra fomitídica. Causa e sacia fome por aí. Palavra sonora que sacia minha fome de ouvir. Palavra inteligente que sacia a minha fome sabedórica. Palavra concreta que chega no estômago e mata a fome mais profana que existe no mundo.

E como se dizia assim. O javali matava a fome. Aquela fome ali. Do momento da escrita. Daqueles seres que ali estavam tão a mercês das palavras traiçoeiras. E como dizia assim. O javali matou minha fome de pensar. E pensar que eu nunca pensei em javalis. Mas dali pra frente ele não mais saiu de mim. Como que se tornou habitante do meu corpo vago e enfeitiçado. Como que se alojou na minha cabeça, se tornando uma espécie de bicho divagador de mim mesma. O javali. Que não tinha nome. Não tinha jeito. Cara ou nem mesmo coração. Mas o javali que tinha fome. Isso tinha de certeza. O javali de tanta fome. Que causava fome em quem quer que fosse que por algum motivo o visse ali. Mas o javali. Ele era fome. E fome era o javali.

E eu acho no fim, que seja lá o que for, desde que seja comível em algum aspecto, vale pra saciar a fome dessas criaturas que por aí trafegam. Daí eu digo que um pensamento é tão belo quanto um javali assado, para quem não tem o que comer. Embora o javali assado não seja assim tão bom como eu sonhava, porque no sonho ele existia mais do que na realidade. Mas como estávamos ali sozinhos: eu e o javali, e não era mais nem sonho nem realidade...não havia outra escolha...engoli o javali dos pés a cabeça.

Sunday, November 18, 2007

Diálogos para nada!!!

Eu, tu e a tv. (ou...um caso pra São Longuinho).

Um texto de Marina Monteiro


1.Por onde você andou?

2.Aqui ou ali. Tanto faz.

1.Como aqui ou ali? Tanto faz. Tanto faz estar aqui ou ali? Aqui você não estava. Te esperei a noite toda.

2.Esperou porque quis. Eu não mandei esperar. Onde está o controle?

1.O seu controle?

2.O da televisão.

1.Ah sim. Não sei. Você foi último a usá-lo, tinha de saber onde está.

2.Mas eu não sei. Foi você quem ficou aqui a noite toda. Você é quem deveria saber.

1.Mas eu não sei. Não vejo tv. Não preciso de controle remoto. Cuide você das suas coisas.

2.Saco. Você implica comigo. Eu gosto de ver tv. E daí? Algum problema nisso. Suas amigas vivem reclamando dos maridos delas, que estão em botecos, eu estou na tv.

1.E que diferença isso faz?

2. Estou aqui. Perto de você.

1.Tanto faz pra mim. Você mesmo disse. Está aqui ou ali. Não está em lugar algum.

2.Não entendo você.

1.E precisa entender? Você é que não entende minhas amigas. O problema não é o bar ou a tv.

2.Ok. Ok. Agente não se entende mesmo. Isso é fato.

1.Desde que assim se diga. Se for fato, vira fato e pronto.

2.Porra!!! Cadê a merda do controle.

1.Você nunca teve uma porra tão forte nem por mim. A tv deve merecer mesmo.

2.Sem brinquedos lingüísticos, por favor. Você sabe que eu não gosto.

1.Nossa. Eu preferiria que você gritasse comigo. Alterasse os ânimos por mim. Mas nem isso.

2.Quer que eu bata em você?

1.Você bateria na tv?

2.Se ela não funcionasse sim.

1.Hum...E eu funciono?

2.(...)

1.Vou tomar banho. Pede pra São Longuinho, daí se você achar o controle dá três pulinhos.

2.Posso oferecer mais pulos?

1.Pode. A quantidade de pulos vai da necessidade que você tem da coisa perdida.

(dia seguinte em uma delegacia em frente ao delegado).

2.Senhor doutor delegado, são pra mais de oito horas e minha mulher sumiu.

delegado.Sinto muito. Só é considerado o desaparecimento em caso de vinte e quatro horas.

2.Mas...e se ela tiver sido seqüestrada?

delegado.Primeiro sugiro que reviste os armários. E veja se ainda há roupas dela lá dentro.Depois ligue para a casa das amigas. Em último caso ligue para sua sogra, talvez ela esteja lá. Caso nada disso tenha dado certo, bom, peça para São Longuinho e diga que se sua mulher aparecer você dará três pulinhos. Dando as vinte e quatro horas e ela ainda desaparecida, aí sim, volte aqui e registramos o caso como desaparecimento, iniciando as investigações. Passar bem.

2.(pensando alto)Serão necessários tantos pulos como ontem a noite? Ai meus pés mal agüentam o golpe.

delegado.O que foi?

2.Nada senhor doutor delegado, só estava a pensar alto. De todo modo, vou pra casa e ver se passa algo sobre o caso na tv. Passar bem.


Sunday, November 11, 2007

vamos iniciar uma nova fase aqui. mais ficcional, menos auto biográfica. se bem, que as ficções têm muito de quem escreve...ou não.

Saturday, November 10, 2007


quis ser alegre o moço
pulava entre os paralelepipidos molhados
evitava escorregar

precipitava-se por uns acúmulos de água
brincava pouco
tinha medo da água

quis ser alegre
mas não encontrava-se nem um pingo de água na bainha das calças
não se molhou
mas também não descobriu a alegria que estava guardada num daqueles "estragos" que a água lhe podia fazer
não correu o risco
saiu seco
não foi alegre
embora o quisesse ter sido

retratos de agora.

Antes eu ficava entre a cena e as palavras...hoje sei o lugar de cada uma em minha vida...em mim...
Não é fácil ter instinto para várias manifestações na vida...mas eu tenho...e ando percebendo as vantagens disso...

Quieta andando pelas ruas. Observando e sendo. A brisa que bate na nuca e fz arrepiar o pescoço. Menina, mulher, criança, séria, adulta, reservada, aberta demais...sempre uma mistura. Lembranças. Certezas. O passado que dá orgulho. O presente que ressalta a evolução. Tudo muito por dentro. Tudo muito sensível. Poesias. Notas musicais. Gostos. Arte. Quem seria se o caminho fosse outro? Malas e malas de saudade, como diria o amigo querido. Um horizonte bonito, cheio de esperanças e alegrias lá a sua espera. Vento no rosto. Ah, como é agradável o vento no rosto. Liberdade real, dessas que não anula o amor, o querer bem, que não precisa se auto afirmar. Vontade de família um dia. Filho pra fazer dormir. Parceiro pra caminhar em paralelo. Pessoas, suas respectivas vidas, algumas escolhas. Caminhos. Renúncias. Ah o coração está tranqüilo. Alma leve. Sorriso no rosto. Alegria. Apesar de tudo, sempre fora um pouco misteriosa, mas não por força, apenas por intuição.

Sunday, November 04, 2007

´´´

Pois é...
O mundo anda do cão [pobres cães]!!! Mas devo confessar que estou lidando bem com o meu mundo. O coração agradece a maturidade. Mas nem sei se tem a ver com ela - só ela. Acho que sentimento forte, no fundo do peito, dá conta de se auto resolver e ocupar os lugares certos na estante. E toda essa "correção" não sôa mal, nem sem graça, é dada aos rompantes de emoção, que jamais devem faltar!!!!

Caixas. Caixas. Caixas. Mudanças. Sorrisos. Futuro. Promessas. Esperanças. Econtros. Casa nova. Na mala os sonhos. E a maldita saudade.

São tantas as minhas saudades....