Wednesday, September 27, 2006

as meninas que nunca foram boas no balé.



nunca fui boa no balé. só de pensar em tirar meu All´Star de botas com tiras até a canela me dava nos nervos. eu devia ter uns cinco anos - idade que a maioria das meninas adora vestir rosa e passar purpurina no cabelo - mas eu não gostava. o colã me incomodava, a sapatilha apertava, a meia calça coçava e a saia rosa de tule me dava agonia profunda. chegava em casa e ia direto pra geladeira cair de boca nos negrinhos - brigadeiros pra quem não sabe - isso quando não era nas bergamotas - eu preferia. pegava aquela friagem vinda do gelo e levava bronca, adorava a idéia de ficar gripada e não ir pro balé. e reparem que eu conto primeiro a parte da história em que eu chegava em casa, só pra continuar fugindo das aulas de balé. mas tudo bem, eu conto um pouquinho...
depois de colocar aquela roupa toda, eu ia pro tal alongamento - e nessa hora eu sempre lembrava da aula de ginástica muito mais divertida, onde a gente aprendia cambalhotas. mas com o corpo devidamente alongado, iamos nós todas em direção a ponta dos pés, ao pliê e sei lá o que mais. todo mundo igual, desenhando no céu uma música chata. disciplina imposta. andar na linha. não riscar fora do quadrado. dá pra entender a birra né?
quando as aulas terminavam, a professora inventava uma disputa besta - e nada didática - pras alunas chegarem rápido à sala. meu terror atendia pela seguinte frase: " a última a chegar na sala arrumada será a mulher do padre". adivinhem quem passou a infância inteira sendo a mulher do padre? - aliás, este que nem podia casar. pois é...
nunca gostei do balé, e ele me traumatizou em todo o ramo artístico que consistia em apresentação diante de público. sim, não me perguntem o que aconteceu no meio do caminho, que fez com que eu me enveredasse pro teatro. mas é sinal de que todo trauma pode ser desfeito. ainda bem!!!
nas aulas de dança da faculdade eu descobri que não era o rosa, nem a saia, nem a purpurina o problema, muito menos a apresentação em público, o problema era o balé mesmo. porque o balé era quadrado, sempre igual, cheio de regras, e pouco ávido a modificações criativas. isso para uma míni anarquista era o caos. o balé não dialogava comigo. com minha liberdade. com minha alma confusa. o balé exigia de mim exatidão, precisão, certeza, e prisão às regras e disciplinas.
quando comecei a fazer dança na faculdade, eu descobri o meu jeito de dançar. talvez meio tosco, meio descordenado, mas muito meu. um jeito particular. isso virou até meu artigo de discussão da matéria. e rendeu. a verdade é que o balé desde cedo me ensinou - por despertar de instinto - que eu jamais seria uma técnica, e sim uma artista - e veja, não estou desmerecendo o balé, mas só acho que não é arte pra mim.
eu descobri um corpo que dança a particularidade, uma dança que ao contrário de uniformizar busca as diferenças, eu descobri corpos autorais, que dançam não só uma indicação, uma coreografia, uma técnica, mas principalmente a sí próprios. então meninas que nunca foram boas no balé, rebelem-se, soltem suas saias rosas, atirem as sapatilhas, e façam suas danças, inventem as suas partituras, e acima de tudo, sejam .
às vezes a vida tenta ser um balé, com essa história de imagem imposta pela mídia, roupa da moda e dieta!!! ás vezes a vida exige da gente o mesmo comportamento que a menina que fecha as pernas e fala francês fluente. às vezes a vida exige que a gente cabule nossos instintos, camufle nossas verdades e se esconda por trás de números, máscaras e cerimônias sociais. mas quer saber? desde os cinco anos eu tô fora desse balé. olhei pra minha mãe e disse: " eu gosto é de jogar bola e brincar na rua, eu quero é escrever histórias, eu gosto é de comer negrinho e usar All´Star, tira a purpurina da minha franja?".

Marina Monteiro.

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